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Artigo

Sobre a sabedoria

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    • São José do Rio Preto
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SOBRE A SABEDORIA

            A sabedoria é uma das palavras mais estranhas e grandiosas, tão sublime que parece inatingível – diferente da educação e da cultura. Os outros podem chamá-lo de sábio, mas não é algo que você possa dizer de si mesmo. Embora seja impossível chegar a uma condição estável de sabedoria, é necessário refletirmos sobre essa qualidade para que possa ser alcançada por todos. São necessários muitos fios para compor o tecido da sabedoria:

REALISMO

Os sábios são, antes de tudo, "realistas" com relação às dificuldades da vida. Eles não são desprovidos de esperança (o que seria loucura), mas estão conscientes dos desafios de qualquer projeto como, por exemplo, criar filhos, começar um negócio, passar um fim de semana agradável com a família, mudar de país, apaixonar-se... Saber que uma coisa é difícil não é empecilho para os sábios, mas isso os torna mais firmes, mais tranquilos e menos propensos a entrarem em pânico quando precisarem enfrentar problemas.  

GRATIDÃO

Cientes de que muita coisa pode acontecer, os sábios estão sempre atentos, mesmo em momentos de paz e de tranquilidade. Com os perigos e tragédias da existência em mente, eles conseguem sentir prazer com um dia de sol, flores bonitas crescendo em uma parede de tijolos, um garoto de três anos brincando no jardim ou uma noite animada entre amigos. Não é que eles sejam sentimentais ou ingênuos, é o oposto: como conhecem as dificuldades da vida, sabem valorizar os bons momentos – por mais simples que sejam.  

LOUCURA

            Os sábios sabem que todos os seres humanos, inclusive eles, estão profundamente afundados na loucura: têm desejos irracionais e objetivos incompatíveis, desconhecem muita coisa, são propensos a mudanças de humor, são influenciados por todos os tipos de fantasias e delírios - e são sempre afetados por estranhos instintos sexuais. Eles sabem que somos apenas macacos evoluídos. Os sábios levam a sério a capacidade de rir de si mesmos. São cautelosos ao fazer afirmações e céticos em suas conclusões.

GENTILEZA

Os sábios são realistas com relação às relações sociais, sabem como é difícil fazer alguém mudar de opinião. Sabem que não faz sentido ficar censurado os outros. Querem - acima de tudo – ter um bom relacionamento com as pessoas, mesmo que isso signifique não ser totalmente autêntico. Por isso, conseguem conviver com indivíduos de diferentes posturas políticas ou religiosas sem tentar convertê-los. Estão cientes de como as coisas podem ser diferentes na perspectiva do outro e procuram focar mais nas semelhanças do que nas diferenças que os separam das outras pessoas.

AUTOACEITAÇÃO

Os sábios fizeram as pazes com a penosa lacuna entre aquilo que imaginavam ser e o que realmente são. Fizeram um acordo com suas idiotices, defeitos, limitações e desvantagens. Eles não têm vergonha de si mesmos e, portanto, não precisam mentir ou dissimular na frente dos outros. Sem vaidade, fornecem um mapa preciso de suas neuroses e imperfeições, e as razões que podem dificultar o convívio diário (embora, muitas vezes, não sejam pessoas tão complicadas assim).

PERDÃO

Os sábios são realistas com relação às outras pessoas também. Reconhecem que todos estão submetidos a pressões extraordinárias para alcançarem seus objetivos profissionais, defenderem seus interesses e realizarem seus desejos. Sabem que muitas ofensas não são intencionais, mas um subproduto da competição constante entre egos alucinados num mundo de recursos escassos. Eles não tiram conclusões precipitadas sobre o que está acontecendo na mente dos outros. Os sábios enxergam as dificuldades do outro. Eles também gritam, perdem a calma, tentam ultrapassar pela direita... Compreendem as razões pelas quais as pessoas podem ser desagradáveis. Eles se sentem menos perseguidos pela agressividade e maldade dos outros porque conhecem a origem de tudo isso: a dor.

RESILIÊNCIA

Os sábios têm uma boa noção daquilo que podem suportar. Sabem que muitas coisas podem dar errado e que – mesmo assim – sobreviverão. Uma pessoa imprudente estabelece metas de vida ambiciosas demais: fica escravo da fama, do dinheiro, das relações pessoais, da popularidade, da saúde... O sábio vê as vantagens de todas essas coisas, mas também sabe que ele pode – a qualquer hora, num capricho do destino – ter que recuar e satisfazer-se com menos.

INVEJA

Uma pessoa sábia não inveja ociosamente: percebe que há boas razões para não ter muitas coisas que gostaria de ter. Ela olha para o grande empresário ou para a estrela de cinema e compreende as razões para não estar no mesmo lugar. Embora pareça ser apenas um acidente, uma injustiça, há alguns fundamentos lógicos para isso: ela não se preparou ou trabalhou o bastante, não tem interesse ou habilidade para ocupar essas funções... Ao mesmo tempo, o sábio compreende que alguns destinos são alcançados por acaso. Algumas pessoas são promovidas aleatoriamente. Outras são bem nascidas. Nem todos os vencedores são extremamente bons e nobres. Os sábios apreciam o papel da sorte e não se amaldiçoam por não terem tido as mesmas condições favoráveis. O sábio tem consciência das consequências do dinheiro e do sucesso. Pode até querer ganhar o mesmo que a outra pessoa, mas sabe que algumas coisas não mudam. Isso serve de cautela (para aqueles que têm sucesso) e de esperança (para aqueles que não têm).

ARREPENDIMENTO

Quando somos jovens, é comum sonharmos que teremos uma vida perfeita e o poder de decisão sobre todas as coisas - no amor e no trabalho – não é verdade? Mas os sábios reconhecem que isso é impossível e que as pessoas cometerão erros em diversas áreas. O perfeccionismo é uma ilusão terrível. O arrependimento é inevitável. Contudo, o arrependimento diminui quando percebemos que o erro é endêmico em todas as espécies. Não se pode olhar para a história de vida de uma pessoa sem identificar equívocos devastadores. Esses erros não são coincidentes, mas estruturais: surgem porque não temos conhecimento suficiente para fazermos as escolhas certas em determinadas fases da vida. No fundo, todos nós andamos às cegas.

SERENIDADE

Os sábios sabem que os conflitos podem ocorrer a qualquer momento - e chegam a temê-los. Por isso, nutrem um forte compromisso com a serenidade. Uma noite tranquila soa como uma conquista. Um dia sem ansiedade é algo a ser comemorado. Eles não têm medo da rotina. Sabem que as coisas sempre poderiam ser piores...