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Diário da Região

20/06/2016 - 21h51min

Literatura

Mulheres escritoras em foco

Literatura

Johnny Torres NULL
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Pelo nono ano, a cidade de São José do Rio Preto é agraciada com mais uma Jornada Internacional de Mulheres Escritoras. O evento, idealizado por Isabel Ortega Marques, teve o apoio da Professora Claudia Nigro (UNESP) e reuniu importantes escritoras de países como México, Espanha, Colômbia, Equador e Brasil, além de autoridades representativas da nossa cidade e região, nos dias 10 e 11 de junho no SESC.  As conversas giraram em torno do tema “Literatura em pauta: Diversidade, questões sócio urbanas, violência de gênero”, com moderação das professoras Edilene Gasparini (FATEC) e Susanna Busato (UNESP). Na abertura, a escritora Lygia Fagundes Telles (Indicada ao Prêmio Nobel de Literatura) foi homenageada pela atriz Tássia Camargo e a gaúcha Luisa Geisler recebeu premiação de escritora revelação.  Em entrevista ao Blog Entre Livros e Palavras, tivemos a oportunidade de bater um papo com as escritoras: Alma Karla, Ana Carolina Jalles, Gabriela Alemán, Lilian Carmine, Luisa Geisler, María Eugenia Vásquez e Natalia Carrero.

BLOG ENTRE LIVROS E PALAVRAS ? Qual é a sensação de participar de um evento literário dedicado às mulheres?

ANA CAROLINA JALES – Eu acho que é essencial que a gente tenha um espaço para as mulheres porque temos ainda pouco espaço na literatura e agora estão se abrindo caminhos tanto na literatura quanto em outros meios.

GABRIELA ALEMÁN – O importante é que, além de unir o espanhol com o português, teremos a possibilidade de nos encontrar com mulheres de um país tão grande como o Brasil e ter um contato mais direto com o que está ocorrendo aqui, poder dialogar e estabelecer um vínculo mais forte em um continente que se divide por causa da língua e dos gêneros.

 

BLOG ? Vocês acham que existe uma espécie de “escrita feminina”?

LILIAN CARMINE – Eu acho que não existe uma literatura feminina, não tem um gênero mais comum para mulheres ou para homens, talvez o que mude seja a nossa perspectiva porque nós temos preocupações, questões e vivências que os homens não têm, mas isso é natural. Os gêneros podem ser escritos por qualquer sexo, por qualquer pessoa.

NATALIA CARRERO – A escrita literária é muito particular, com uma voz e um olhar próprio e o que vale é essa particularidade [...] Por isso, esta pode ser uma pergunta de tese... Mas podemos dizer que há preocupações temáticas e discursos que são coincidentes entre mulheres, homens e grupos sociais e, nesses casos, fazem-nos trabalhar de formas diferentes, optando por diferentes processos ou gêneros. Então, essas coincidências e diálogos na literatura fazem sentido para mim... e desde que sou mulher, defendo que esses aspectos sejam ressaltados. 

 

BLOG ? Como a literatura pode contribuir para o recente debate acerca da violência contra a mulher?

ALMA KARLA – Considero que a literatura pode ser usada como uma ferramenta ou uma arma de defesa contra a violência... se nos voltarmos aos gregos e às funções básicas da literatura como meio de expressão e de catarse,  entendemos que a literatura pode funcionar como um manto protetor ou um escafandro que nos leva às profundezas dos infernos vividos pelas mulheres em todos os continentes. Então, nesse sentido, há uma contribuição enorme por meio da crítica, da reflexão, da expressão, da interpretação, todas as capacidades cognitivas superiores que nos permitem desenvolver nossa natureza de diferentes formas. Principalmente, as mulheres que sofreram alguma forma de opressão ou que foram silenciadas encontram na literatura a possibilidade de escrever sobre suas vidas, de denunciar tudo de mal que passaram e, sobretudo, de dialogar com outras pessoas para poderem construir um mundo completamente melhor, se for possível. E acredito que construir um mundo melhor sempre é possível.

LUISA GEISLER – Eu acho que é muito interessante como a violência contra a mulher é baseada na objetificação, no fato de as mulheres serem vistas como um objeto com uma função específica como mãe, irmã, namorada, etc. Não importando o parentesco, ela é uma mulher. E a literatura, justamente, tira essa desumanização, a mulher deixa de ser um manequim para ser uma pessoa com vontades. A empatia da literatura tem o poder de reverter isso, [...] de mostrar que as mulheres não devem sofrer violência pelo fato de serem mães ou esposas de alguém mas porque são pessoas. [...] Então, a partir do momento em que a gente enxergar as mulheres como pessoas, conseguiremos combater a violência como um todo e a própria cultura machista que a cerca.

 

BLOG ? Vocês acham que a internet alterou o processo criativo na literatura?

ANA CAROLINA – Eu acredito que o processo de criação tenha se modificado com a internet, principalmente, porque você tem vários pontos de vista, você pode achar informações sobre outras pessoas ou coisas na internet com as quais você não teria contato no mundo real. Você pode procurar relatos de pessoas sobre as quais você precisa escrever alguma coisa e, ao mesmo tempo, você pode acabar se distraindo, abrir várias abas, começar a pesquisar uma coisa e acabar lendo sobre outra completamente diferente. E também, às vezes, você está escrevendo alguma coisa quando abre uma janela do facebook e isso faz você perder toda a criatividade.

LILIAN CARMINE – Eu vejo a internet como uma ferramenta, é o jeito como você a utiliza que vai transformá-la em uma coisa boa ou ruim. Eu sou bastante focada quando é a hora de trabalhar... não me desconcentro fácil, então a internet só me ajuda, só serve pra pesquisar coisas que o personagem precisa e acabo encontrando outras coisas que não havia pensado por causa dos links. O brainstorm que eu faço é com o mundo. No meu caso, eu vim do Wattpad, que é uma rede de escritores online que oferece livros de graça e a internet possibilitou que eu cortasse o caminho das editoras para ir direto ao público. Tenho muitas colegas do Wattpad muito novas e geniais [...] e acho que o material publicado na internet tem tanto peso quanto o livro impresso. A internet está aí pra disponibilizar mais livros, mais leitura, mais literatura para as pessoas e eu vejo, de fato, que elas estão consumindo muito mais. 

 

BLOG ? Qual é a relação de vocês com a crítica? Já sofreram algum tipo de preconceito?

GABRIELA ALEMÁN – Há muita pouca crítica especializada no Equador e há cada vez menos suplementos culturais nos jornais... e suplementos literários não existem. Eu gostaria que houvesse mais meios de porque sempre é bom escutar a opinião das pessoas, mas não há espaço para isso no Equador. Temos a impressão de que os blogues, que eram uma possibilidade de diálogo, tendem a desaparecer também. Cada vez se lê mais escritores do que escritoras no Equador e, além disso, não há muitos leitores, campanhas de leitura nem bibliotecas... é uma espécie de círculo vicioso.

MARÍA EUGENIA VÁSQUEZ – Posso dizer que meu livro não atinge um público geral grande e sim círculos políticos e acadêmicos que o consideram um dos primeiros testemunhos autobiográficos de mulheres que contam sua experiência de guerra (na Colombia). Por isso recebi mais críticas de cunho político e não literário, em uma coluna de uma universidade muito importante dos Andes. Para mim a crítica é muito valiosa porque retroalimenta e origina resenhas, que são análises enriquecedoras que mostram a visão das pessoas sobre a narrativa, considerando o contexto social, político e econômico. Por isso acredito que críticos realmente críticos fazem falta. Como tive a oportunidade de publicar a história da organização da qual pertenci durante muito tempo, fui criticada pelos homens de esquerda do meu país que desperdiçaram a oportunidade de negociar a paz para falar de assuntos íntimos, como a minha sexualidade. Esse é um tipo de crítica advinda de uma visão patriarcal que acredita que “esse corpo não é nosso por pertencer ao coletivo e por isso não devemos falar sobre certos assuntos”. É uma espécie de censura imposta às mulheres que se permitem contar as coisas que me atrevi a contar.

 

BLOG ? Quais foram suas principais influências como escritoras? Como surgiu a vontade de escrever?

NATALIA CARRERO – No meu caso é engraçado porque a minha principal influência como escritora é a razão pela qual estou aqui, que é a escritora brasileira Clarice Lispector. A minha experiência foi nociva porque sofri uma espécie de intoxicação literária devido à leitura compulsiva da obra desse gênio da literatura. Isso me levou a escrever o meu primeiro romance cuja protagonista é fanática por Clarice Lispector e fala de uma intoxicação literária. Desde então, me interesso muito quando alguém me pergunta sobre as influências de um escritor e acredito que aprendemos mais com as experiências ruins do que com as boas. Por isso é importante nos atentarmos às influências. Essa é uma pergunta que se desdobra em um diálogo contínuo com a literatura.

LUISA GEISLER – Na verdade, a vontade de escrever surgiu desde que eu era muito pequena. Eu acho que os grandes escritores são grandes leitores então eu sempre lia muito, o tempo inteiro e fazia os meus próprios livros, grampeava as coisas e vendia para o meu pai. Eu comecei a ler escritores homens, James Joyce, Machado de Assis, Guimarães Rosa...e interessante que o meu escritor favorito era o Hemingway. [...] Até os quinze anos ele era genial mas depois aconteceu alguma coisa. A minha formação literária foi muito machista, tanto é que muita gente diz que eu escrevo como homem por cortar adjetivos, escrever frases curtas, etc. Por outro lado, as escritoras contemporâneas têm me ajudado a repensar isso.

 

BLOG ? Qual é o futuro da literatura em três palavras?

ALMA KARLA – Tempo, sonho e pensamento.

MARÍA EUGENIA VÁSQUEZ – Sensibilidade, pluralidade e transformação.

 

 

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