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Diário da Região

08/08/2016 - 20h22min

Entrevista

Entrevista com poetisa Susanna Busato

Entrevista

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            A escritora Susanna Busato tem pós-doutorado em Linguística (Semiótica) pela Universidade de São Paulo e, atualmente, é professora da área de Literatura Brasileira na UNESP de São José do Rio Preto. Em 2013, publicou o livro de poesias "Corpos em Cena", pela Editora Patuá, que ficou entre os 10 melhores livros de poesia no 56º Prêmio Jabuti de Literatura. Em entrevista ao Blog Entre Livros e Palavras, tivemos a oportunidade de saber um pouco mais sobre a autora.

 

 

 

BLOG ENTRE LIVROS E PALAVRAS ? Entre tantos gêneros literários, por que você escolheu a poesia?

SUSANNA BUSATO ? Não sei se eu escolhi a poesia ou se foi ela que me escolheu. Sempre tive intimidade com as palavras, desde quando comecei a ler e escrever e a descobrir suas nuances de som e de imagens e a possibilidade de criar histórias com elas. A poesia foi se aproximando aos poucos como letra das canções que eu ouvia, das quadras e poemas que lia na escola e mais tarde como uma descoberta de ser um espaço meu, um lugar íntimo. Aos poucos, a poesia foi-se tornando um lugar vital mesmo. 

 

BLOG – Como foi o processo de elaboração do livro “Corpos em Cena”?

SUSANNA – O livro como está organizado foi resultado de um trabalho minucioso de elaboração. Depois de observar os poemas que tinha em mãos, decidi colocá-los numa pauta performativa. A música foi o paradigma natural que escolhi para reger os movimentos desses "corpos em cena", em termos de seus modos de ver, sentir e viver as vicissitudes da vida, do amor, da dor, da saudade, do mundo. As claves dos poemas são regidas, portanto, com seus "sustenidos" e "bemóis", matizes que se agregam sensivelmente às curvaturas do corpo desse sujeito poético que se coreografa enquanto sente e descobre a vida. 

 

BLOG – Muitos poemas do livro “Corpos em Cena” são marcados por sentimentos e conflitos do universo feminino. Você acredita que as mulheres estão conseguindo um espaço maior no mercado editorial brasileiro?

SUSANNA – O universo feminino comparece nos poemas sem dúvida, mesmo porque é a experiência minha como mulher que sente o mundo e a vida que rege o olhar dos poemas. Não creio que poderia ser diferente. No tocante à projeção de mulheres têm no mercado editorial brasileiro, isso é um fato. E isso, creio, é resultado de um maior impulso crítico nascente delas mesmas, uma vez que as gerações de poetas mulheres de 1980 para cá têm se posicionado de modo mais natural nesse cenário. Eu, por exemplo, nunca me senti excluída desse universo por ser mulher. Para mim, escrever e mostrar isso sempre foi algo natural.

 

BLOG – Você acha que a poesia atrai um público restrito?

SUSANNA – A poesia não atrai um público restrito. Nunca atraiu. E também essa nunca foi minha opinião. A poesia está na canção popular, nas trovas, no cordel, nas cantigas de roda, nos poemas dos saraus que têm atraído a atenção de um público imenso, em vários setores da sociedade. A poesia tem seu público e o nível de complexidade com que é elaborada seduz este ou aquele, porque a poesia é o modo mais antigo de dizer a vida, de pensar o mundo, de transformar os olhares, por meio de diferentes formas. Existe uma poesia canônica, ensinada nas escolas como parte de nosso patrimônio cultural. Há também uma poesia que é cantada pelas vozes de setores experimentais de nossa cultura e também de setores marginais. A poesia das zonas periféricas, por exemplo, que congregam autores que acreditam na palavra como forma de crítica social, essa poesia tem seduzido muitos também. Portanto, não podemos afirmar que a poesia atrai um público restrito. Melhor seria dizer que ela atrai um público sensível de sua cultura e condição existencial, que deseja algo mais que o arroz-com-feijão da prosa fácil do cotidiano.

 

BLOG – Quais são suas referências na literatura contemporânea brasileira?

SUSANNA – A literatura contemporânea tem se mostrado bastante variada e muitos poetas têm me chamado a atenção. Difícil mencionar todos eles, mas começaria com o nome da poeta carioca Claudia Roquette-Pinto, da pernambucana Mycheliny Verunsky, do poeta Augusto de Campos, de Ademir Assunção, de Roberto Piva, Frederico Barbosa, Marcelo Tápia, Claudio Daniel, Sebastião Uchoa Leite e de outros contemporâneos singulares e sedutores da palavra como Manoel de Barros e Hilda Hilst...

 

BLOG – Como professora universitária, quais são as suas estratégias para incentivar o interesse pela poesia?

SUSANNA – Em matéria de poesia, procuro seguir os roteiros de Ezra Pound, para quem poesia é algo para ser ouvido, olhado, tocado, sentido e somente por último ser pensado. Procuro construir e incentivar nos meus alunos essa percepção de poesia, para que, enfim, como futuros professores, críticos e / ou pesquisadores de literatura, possam compreender de onde e como a poesia nasce e cresce nas teias da linguagem, como tela e tecido de um dizer as coisas de modo singular e sensível. Também incentivo meus alunos a criarem poemas, a viverem o processo de construção da matéria poética. Muitos deles têm se interessado pela poesia, por seu universo complexo e a não mais sentirem aquele medo de se aproximar de sua arte.

 

BLOG – Em face das mudanças ocorridas no cenário político atual, qual é a sua visão a respeito do futuro da educação no Brasil?

SUSANNA – Difícil prever o que virá por aí diante de um cenário tenso politicamente. Particularmente, vejo com pessimismo o futuro da educação no Brasil. E quando se fala em educação, é necessário refletir sobre o que se fala. Não podemos aceitar, por exemplo, que a educação no Brasil seja alvo de setores conservadores da sociedade. O livre-pensar é uma das garantias de nosso Estado Laico e o ensino de nossas escolas públicas necessita ter a sustentabilidade necessária para construir o conhecimento de modo pleno com o aluno. Há muito a ser feito ainda em vários setores inseridos nesse nome "educação", e tanto Estado como Municípios devem realmente investir sem economizar em tecnologia e infraestrutura educacional e também na formação continuada dos professores que merecem ser mais bem remunerados pelo que fazem. 

 

BLOG – Você tem planos de publicar novos livros de poesia?

SUSANNA – Atualmente estou no processo da elaboração de um livro de poemas. É um processo complicado, pois procuro pensar não somente a forma dos poemas em si, mas o livro como um corpo significante também. É um processo experimental, sempre, e desafiador, pois poesia é mais do que versos no papel. Poesia é um modo de resistir ao mesmo e de se permitir ousadias no campo da palavra. Vamos ver no que vai dar! 

 

 

 

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