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Do outro lado


A lambe-lambe e o bolo de abacaxi
segunda-feira, 10/11/14, às 00:00, por
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(Crônica publicado ontem no Diário, com ilustração do Orlandeli)


Sábado passado, a família toda se reuniu num almoço para celebrar os 90 anos recém-completados pela minha única avó viva. Ela escolheu um vestido azul para usar na ocasião, combinando com uma discreta maquiagem cor de rosa, que os óculos de lentes grossas quase ofuscaram ao olhar dos menos atentos.


Sentada no centro da mesa, ficou rodeada de familiares, incluindo os filhos vivos, as noras, os netos e os bisnetos. O resultado das eleições; as absurdas reações de preconceito contra a população do Nordeste; o desempenho das crianças na escola; os dois dentes do siso arrancados de uma só vez; a nova receita de bolo; o mau gosto da sobrinha que persiste na hora de se vestir - os assuntos foram dos mais diversos.


Como a comemoração reuniu mais gente que o de costume, o grupo precisou se distribuir, e os mais jovens se acomodaram numa mesa ao lado. A certa altura, sem fazer alarde, minha prima aproveitou um dos momentos que o sol se escondeu, escolheu o pedaço mais bonito do jardim, e nele posicionou uma cadeira de madeira. Não demorou, lá estava minha avó, com um ar de satisfação, pronta para uma sessão de fotos para a posteridade.


Ao lado dela, a neta responsável pelo o que viria na sequência, apesar de carregar uma câmera digital, mais lembrava um antigo fotógrafo lambe-lambe em seu ofício em praça pública. Primeiro, cada um dos convidados foi chamado individualmente para um retrato ao lado da nona. Depois, a turma começou a ser dividida em grupos.


No início, houve uma certa lógica na divisão. Mas, à medida que o tempo passava, os pitacos dos parentes sobre o trabalho da lambe-lambe aumentavam, e os critérios iam se perdendo. Eis algumas das frases que se seguiram enquanto os retratos eram feitos: “Agora a foto é só com os netos. Chama os bisnetos. Agora, é a vez das noras. Vem a família de fulano. Vamos tirar com os casais, um por vez. Vamos fazer com os netos e os bisnetos”.


As fotos terminaram com uma geral, que reuniu todos que participaram do almoço de aniversário. Nessa hora, o ritmo da sessão tinha acelerado, isso porque o sol havia dado o ar da graça, e o calor, aumentado. Foi então que, com minha avó de volta à mesa, trouxeram o bolo de abacaxi e os brigadeiros. Enquanto cantávamos os parabéns, ela ameaçou chorar.


Desde aquele sábado, comecei a pensar mais sobre o que se passa pela cabeça de alguém que completa 90 anos. Supus que, ao se ver rodeada pela família, dona Aurora lembrou do quanto já viveu, ou de quem já não está mais entre a gente.


Depois dos parabéns, ela comeu com muito gosto seu pedaço de bolo. Devagar, fez o mesmo com vários dos brigadeiros, mandando às favas o diabetes. Observei a cena e lembrei que não poderia esperar outra coisa da minha avó. Há décadas, ela é uma grande companheira para saborear uma sobremesa ou tomar um sorvete. Assim que é a vida.

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