X
X

Diário da Região

Blogs
Do outro lado


A generosidade dos porcos
quarta-feira, 23/12/15, às 18:25, por
Compartilhe

Banha de porco, costelinha de porco, linguiça, cudiguim, torresmo, panceta, carne de porco na lata. Acho que tudo o que é possível fazer a partir da carne do porco passou pelo meu prato quando criança. 

Proeza do meu avô, que no meio de um bairro residencial, com vizinhos de todos os lados, teimava em manter um chiqueiro de porco caipira no fundo do terreno onde ficava sua máquina de beneficiamento de arroz. Era instalado lá atrás, depois do palheiro. E como eu adorava aquele lugar. 

Dar comida para os porcos - milho, folhas, legumes... Vê-los chafurdando na poça de lama pendurada pela cerca. Passava muito tempo me distraindo com os sons que produziam, com os seus movimentos. 

Não sei dizer se tinha a noção exata de que eram aqueles bichos que depois iriam para a panela. De vez em quando, algo estranho acontecia... Surgia uma tensão no ar, e tudo o que se passaria nas horas seguintes as crianças eram impedidas de observar - apenas ouviam, através das paredes da casa.

Passados esses momentos, sempre protagonizados por homens, quem entrava em ação era minha avó, lidando com a carne. Ficava horas na frente do fogão. Um latão de alumínio sempre cheio de banha e de carne no canto da cozinha era de lei. Muito mais prático e saudável que o tal do micro-ondas, creio eu. 

Às vezes, o porco era assado. Imagino que na época das festas isso fosse mais comum. Lembro que umas tias de Campinas gostavam de uma parte que a maioria nutria aversão: a cabeça. Nunca me arrisquei. 

O tempo passou e, mesmo após ter fechado a máquina de arroz e deixado de criar porcos, meu avô não perdia a oportunidade de aparecer com um saquinho de torresmo, de papel pardo - o verdadeiro, nada daquela tal de pururuca industrializada vendida em sacos plásticos.

Já cheguei a provar a carne de porco na lata resgatada recentemente por alguns estabelecimentos, muito longe de se igualar ao sabor da minha infância, ao daquela que ficava armazenada no latão de alumínio. 

“Ficou muito difícil encontrar um porco caipira”, dizia nos últimos tempos meu pai, quando chegava dezembro, e saía à procura de um quarto de leitoa para o almoço de Natal.

Sim, pai, muita coisa vai perdendo o sabor, e a graça. 

Esqueci minha senha
Informe o e-mail utilizado por você para recuperar sua senha no Diário da Região.

Já sou assinante

Para continuar lendo esta matéria,
faça seu login de acesso:

É assinante mas ainda não possui senha? Clique Aqui!
É assinante mais quer redefinir sua senha? Clique Aqui!

Assine o Diário da Região Digital

Para continuar lendo, faça uma assinatura do Diário da Região e tenha acesso completo ao conteúdo.

Assine agora

Pacote Digital por apenas R$ 16,90 por mês.
OUTROS PACOTES


ou ligue para os telefones: (17) 2139 2010 / 2139 2020

Cadastro Grátis
Diário da Região
Clique no botão ao lado e agilize seu cadastro importando seus dados básicos do facebook
Sexo
Defina seus dados de acesso