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Do outro lado


A fogueira de São João
terça-feira, 30/06/15, às 18:01, por
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Uns dizem que tudo começou com uma promessa dos irmãos Aurora e Durvílio. Outros, simplesmente pela vontade de manter viva uma tradição. 

Uma vez por ano, a casa simples ficava de portas abertas a quem quisesse entrar. Vinha vizinho, vinha parente, gente de tudo que é canto para o terço em homenagem a São João Batista - com rojão, fogueira e levantamento do mastro. 

Depois da reza, era hora da festança. Religiosamente, tinha distribuição de pipoca, amendoim torrado, bolo de fubá, quentão e chocolate quente. 

Para concretizar a tradição, era preciso um mutirão. Durvílio encabeçava os preparativos, ao lado da irmã e do cunhado, Antônio, o Tonico. Às vésperas do terço, era de praxe ele sair pela beira das estradas a procurar a flor-de-são-joão que decoraria o terreiro. Sua mulher, Odila, fazia o chocolate quente. 

Entre as atribuições de Tonico, estava preparar a fogueira, com a ajuda de seu braço direito, Quelé. Ele também tinha a responsabilidade de buscar, em outra cidade, um compadre que protagonizava o ritual de caminhar pelas brasas, sem se queimar. 

Mais do que demonstrar a devoção ao santo, a expectativa maior dos presentes no terço era mesmo em relação àquele momento. Filho do meio de Aurora e Tonico, Zé Roberto encarava horas de trem vindo de São Paulo para conseguir pegar, pelo menos, um pedaço da festa, e assistir à passagem sobre as brasas da fogueira. 

Conforme a tradição, o ritual acontecia à meia-noite. Era preciso ter fé para não queimar a planta dos pés. Também não podia haver fogo, nem cinzas, apenas brasa viva. 

Sem entender direito o motivo de tamanho sacrifício, meninos que até então corriam soltos pelo terreiro ficavam estáticos, intrigados, suando frio, com o bafo quente do braseiro a queimar suas bochechas. 

Houve um ano em que a festa até atraiu a impresa local. A notícia saiu no jornal acompanhada de fotos do compadre, que caminhava sobre as brasas e depois exibia, intacta, a sola dos pés.

Com o passar do tempo, alguns dos participantes do terço começaram a se arriscar, incluindo Tonico. Assim como o compadre, queriam expressar sua fé andando sobre as brasas da fogueira de São João.

Isaura, uma das irmãs de Aurora e Durvílio, costumava voltar para casa com o coração apertado. E se o fogo voltasse a acender durante a madrugada e queimasse tudo ao redor? 

Depois de muitos anos, quando a tradição já acabara, ela confidenciou sua antiga aflição à irmã, que a ouviu com surpresa. A mesma preocupação nunca havia passado pela cabeça de Aurora, tampouco de Tonico, ou de Durvílio. 

Aos que acreditam, São João parece que sempre protegeu aquele terreiro. 

 

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