X
X

Diário da Região

Blogs
Diário História


História Natural na Fafi
domingo, 20/12/15, às 00:00, por
Compartilhe

Em 1996, o professor dr. Luiz Dino Vizotto, atendendo a meu convite, participou do projeto da Reitoria da Unesp, através do Cedem (Centro de Documentação e Memória), dando seu depoimento sobre os primórdios da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de São José do Rio Preto (Fafi). Apresento-lhes a seguir trechos da entrevista na qual relata sua trajetória escolar, reconstitui acontecimentos que vivenciou e transmite a experiência que adquiriu, especialmente como membro atuante entre os professores e organizadores do Curso de História Natural da Fafi. A narrativa é linear e individual. 

Ele nos dá a ideia do que foi sua vida acadêmica no final dos anos 1950, as relações criadas com os membros do seu grupo e de sua profissão. Relembra os primeiros anos da Fafi, hoje Instituto de Biociências, Letras e Ciências Exatas – Ibilce/Unesp, os desafios, dificuldades, criatividade e superação. Registros da memória como este, sem dúvida, dão mais uma possibilidade de se fazer a história do ensino superior no interior paulista. Dedicou-se ao magistério, à pesquisa e prestação de serviços à comunidade rio-pretense e à comunidade acadêmica e científica. Foi vice-diretor da universidade e hoje, aposentado, é decano e professor emérito da instituição.

 

O primeiro biotério de Rio Preto - 20122015 O primeiro biotério de Rio Preto, no quintal da Fafi

Enfim, um curso superior

Vizotto traçou uma série de considerações sobre a disponibilidade e adequação e modificações do espaço concedido por empréstimo, para instalação e funcionamento dos cursos criados: História Natural, Letras (Neolatinas e Anglo-saxônicas) e Pedagogia. “A entrada da Fafi era pela lateral do Instituto Monsenhor Gonçalves, na rua Presciliano Pinto, 940, Boa Vista. O acesso à ala nova era pelo corredor lateral. A porta de entrada dava acesso a uma escada que levava à parte superior e no térreo abriu-se uma porta para os dois laboratórios. Na parte de cima, as instalações eram bastante primitivas. 

No fundo do corredor, uma sala pequena para a secretaria e administração. O professor Pinto de Carvalho tinha uma pequena sala, como diretor, junto a essa secretaria. As salas de aula de Letras e Pedagogia tinham simplesmente um quadro negro e carteiras comuns que os alunos ocupavam para assistir às aulas. Tínhamos praticamente tudo para o início do curso de História Natural. Para o início que eu digo é o primeiro ano, porque os dois laboratórios eram ocupados em dias diferentes da semana e davam muito bem para o primeiro e segundo ano. Para o terceiro já requeria um espaço maior do que aquele.”

 

Entrada da faculdade - 20122015 Entrada da faculdade

A carreira de professor nos anos 50

“Eu me formei em 1954 no curso de História Natural na Universidade de São Paulo e no início de 1955 prestei os chamados “concursos de ingresso no magistério de 1º e 2º grau. Prestei três: Biologia Educacional, História Natural e Ciências físicas, químicas e naturais, correspondentes ao primeiro grau na ocasião. Como tive boa classificação nos concursos, escolhi Araçatuba onde, por uma questão de horário, tive que fazer a escolha Biologia Educacional e Ciências para o primeiro grau do ginásio. 

E meu ingresso foi relativamente curto, embora já tivesse lecionado, quando aluno em São Paulo, no Colégio de Aplicação, ali na Gabriel dos Santos. Lá permaneci dois anos, como uma experiência didática que era realizada com alguns dos alunos e o pouco número de professores especializados nos vários assuntos. Fiquei em Araçatuba oito meses e logo em seguida fui convidado pelo secretário de Educação, na época o professor Ulhoa Cintra, para vir a Rio Preto, logo no começo do ano de 1956.

Esse convite me foi feito, mas somente em 3 de maio é que saiu o ato da minha transferência de Araçatuba para Rio Preto, uma vez que o quadro docente era feito basicamente por professores secundários que estavam ministrando aulas no ensino público. Fui comissionado. Cheguei em maio de 1956. Existia uma linha aérea entre Rio Preto e Araçatuba, se não me engano a Sadia.

Vim de avião. Na minha chegada, ocorreu um fato que achei engraçado! Tomei um táxi e disse ao chofer: ‘Você pode me levar à Universidade Municipal, a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras?’ Ele disse: “Olha, eu não conheço. O que tem aqui é Faculdade de Economia, não de Contabilidade, Faculdade D. Pedro II.’ Pedi então que me levasse a essa Faculdade, porque em contato com alguém de lá, o diretor me daria informação a respeito da Universidade. 

Eu me dirigi para lá e conheci então um dos diretores, o professor Bento Abelaira Gomes. Ele me recebeu com satisfação, e a respeito da Universidade Municipal, me disse: Está criada no papel, não tem nem local em que vai ser instalada. Estão falando que vai funcionar em uma ala do Instituto de Educação Monsenhor Gonçalves e aí a coisa vai começar.” 
(Nota da Edição: o professor Abelaira viria a ser sogro de Vizotto, que casou-se com a professora Maria Aparecida Abelaira)

 

No sobrado, a segunda sede - 20122015 No sobrado, a segunda sede

Os quatro primeiros docentes

“O curso de História Natural, por ter laboratório, tinha instalações um pouco superiores. Foram estruturados dois laboratórios: um de Genética, de Citologia, Biologia propriamente dita e Zoologia; e outro de Botânica e Mineralogia, matérias que entravam para o primeiro grau. O professor Celso Abade Mourão, eu, João Jorge Cunha (que veio posteriormente) e o professor Alberto Barbosa Pinto Dias (que veio para lecionar Botânica) começamos a trabalhar em dois laboratórios.

Eram esses os quatro professores iniciais em 1957 para iniciar o curso de História Natural. Nesse primeiro ano de 1957, fiz uma coleção de insetos, correndo a região, fazendo laboratório, indo às oficinas, buscando em São Paulo recursos necessários para elaborar a lista de compras do material: microscópio e projetores que hoje não existem mais. Com o epidiascópio, eles projetavam livros e slides, que o próprio professor preparava. Eu tenho um ainda, há 40 anos.

Na medida em que o ano passava, havia necessidade de se criar classes em 1958 - 1959, quando a Faculdade passou para o Estado. Daí a razão de se locar outro prédio, ao lado do Instituto de Educação, na esquina das ruas Presciliano Pinto e Silva Jardim. Era um sobrado que passou a albergar o segundo e o terceiro ano dos vários cursos de Letras, a biblioteca e a administração. No quintal foi montado, em 1958, o primeiro biotério para a criação de animais.

Dia a dia

“Durante o dia, dávamos a formação teórica e prática, íamos ao laboratório, fazíamos excursões, íamos ao campo; e à noite, eram as chamadas palestras, pois convidávamos pessoas ora da cidade, ora de fora da cidade para que os alunos pudessem ter um pouco mais do conhecimento desses profissionais, dentro da área. Praticamente a gente vivia a Faculdade. Acho que foi um momento muito agradável da nossa vida.”

 

Prédio do Monsenhor Gonçalves - 20122015 Na área assinalada do prédio do Monsenhor Gonçalves, funcionava a primeira faculdade

Desde pequeno, ele criava cobra, rato, barata...

Vizotto iniciou a entrevista relembrando a formação escolar de primeiro grau, realizada em Garça, cidade onde nasceu. O segundo grau, que correspondia naquela época ao ginásio, foi no recém-fundado Ginásio Municipal. Garça era uma cidade relativamente pequena e não comportava um colégio ainda. “Daí a razão de eu ter me deslocado para São Paulo e fui estudar no Liceu Luis Pasteur, o franco-brasileiro de São Paulo. Toda minha formação de segundo grau foi nesse colégio.

Posteriormente, prestei concurso para ingresso na USP (Universidade de São Paulo), que me deu as condições de fazer um curso chamado antigamente de História Natural. Tive formação com várias especializações no contexto deste grau superior. 
Lembro que desde menino, desde garoto, eu já tinha um contato muito grande com a natureza. Criava animais exóticos, para surpresa de meu pai, que achava que eu devia criar animais domésticos. 

Com 7, 8, 9, 10 anos eu criava cobra, jacaré, rato, barata... e preparava também esse material em termo de taxidermia. Daí a razão de eu ter escolhido, no curso superior, uma disciplina afim às minhas tendências, que eram praticamente de zoologia. 
Foi esse o início, o começo, que eu acredito tenha sido o tema da minha vida com animais, equilíbrio da natureza, ecologia, como sempre foi.”

 

Esqueci minha senha
Informe o e-mail utilizado por você para recuperar sua senha no Diário da Região.

Já sou assinante

Para continuar lendo esta matéria,
faça seu login de acesso:

É assinante mas ainda não possui senha? Clique Aqui!
É assinante mais quer redefinir sua senha? Clique Aqui!

Assine o Diário da Região Digital

Para continuar lendo, faça uma assinatura do Diário da Região e tenha acesso completo ao conteúdo.

Assine agora

Pacote Digital por apenas R$ 16,90 por mês.
OUTROS PACOTES


ou ligue para os telefones: (17) 2139 2010 / 2139 2020

Cadastro Grátis
Diário da Região
Clique no botão ao lado e agilize seu cadastro importando seus dados básicos do facebook
Sexo
Defina seus dados de acesso