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Casa é centenária muda de lugar em projeto inédito
domingo, 28/08/16, às 00:00, por
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Em 1916, o fazendeiro Pedro José da Silva construiu uma casa elementar de roça com estrutura de tijolo e madeira: dois quartos, duas salas, uma sala maior para refeições e uma cozinha com fogão a lenha. Uma boa casa, casa de patrão, com escadaria frontal e lateral.

Chão de tábua corrida, grossa, janelas maciças, vigas imensas. Tipos de madeira empregados: aroeira, angico, peroba rosa, ipê e cedro. Paredes de tijolos à vista, com algumas partes rebocadas.

Linda casa. Sobreviveu a uma centena de anos. Fica na área rural de Guapiaçu, perto do Ribeirão do Modesto, construída pelo tataravô do engenheiro João Carlos de Carvalho. Estava em ruínas.

Há quatro anos, Carvalho comprou a casa do último morador, um primo. Ele olhou a casa mais de uma vez, olhou de novo, analisou com olhos de eficiente restaurador de prédios e resolveu comprar para conservar aquele patrimônio. Gastou um bom dinheiro sem retorno material, mas teve a grandeza de preservar a memória de um tempo passado.

“Achei que valia a pena investir no imóvel pelo valor histórico. Já que tenho experiência em restaurar, em devolver a construção às suas origens, fui em frente.”

Fechou negócio e transportou tijolo por tijolo, viga grossa por viga grossa, para o outro lado do ‘córgo’, recriando a casa no seu traçado inicial.

O processo começou com um desmonte técnico da casa, identificando peça por peça e transportando-as. Foi preciso guindaste para levar os pilares de madeira.

Carvalho aproveitou as telhas e tijolos, repondo algumas falhas, além de 95% da madeira que, nota-se, foi aparada a machado, não havia tecnologia para serrar. Mobiliou a casa com móveis muito antigos, quase sem restauração. As camas foram cobertas com colcha de retalhos, bem típica, e nos quartos, além dos móveis, há o onipresente penico.

Réplica perfeita, a casa de 100 m2, inspira saudades de outras épocas.

As janelas de madeira maciça receberam cortinas de chitão, supercoloridas. Lamparinas de querosene aqui, acolá. E dois guarda-comidas (armário de cozinha), coador de pano, apetrechos de cozinha e no centro, um fogão a lenha, no jeito para ser usado.

“Tenho uma relação muito forte com esta casa, ela tem um ar de tranquilidade, de paz, serenidade, uma casa saudável espiritualmente. Parece até que meus antepassados estão por ali,” diz Carvalho.

A única alteração do projeto original foi feita no porão: Carvalho aumentou o pé direito para circular livremente sem se curvar, e ainda guardar seus Fuscas (67 e 72) e um jipe (57). Na frente da casa, embelezando a paisagem, um carro de boi que Carvalho encontrou numa área próxima a condomínios há 15 anos e comprou para restaurar. Ficou perfeito.

A casa ficou pronta no dia 19, sexta-feira, e foi inaugurada com encontro de catireiros e violeiros, além da comitiva Água de Peão. Vai ficar aberta à visitação pública, principalmente escolas, mediante agendamento. Carvalho é professor e coordenador de engenharia na Faculdade Dom Pedro 2º. Em sua grande obra de arte, ele soube ser fiel às origens caipiras, regido pela sensibilidade, num processo quase artístico.

CAPELA_WEB A capela segue estilo da casa, em madeira e tijolo

Capelinha e devoção

Ao lado da casa caipira, Carvalho ergueu graciosa capela (que não estava no projeto original), fruto de uma promessa. Seu filho caçula, Bruno, tinha 7 anos, quando caiu na frente de um trator dirigido pelo pai, que passou por cima da criança. Desespero geral.

“Era um sábado à tarde, dia de São João, a quem fazemos um terço todo ano. Pedi ajuda a ele e a Nossa Senhora Aparecida, são minhas devoções. A marca do pneu ficou na testa dele. Trouxemos para a Beneficência Portuguesa, fizeram todos os exames, não foi constatado nada. Levamos para o Austa, novos exames, nada. Ninguém acreditava. A medicina pode ter outra explicação, mas para mim, é milagre,” disse Carvalho, um tanto emocionado. Bruno tem hoje 23 anos e goza perfeita saúde.

Dentro da capela, há flores, cadeiras antigas, um altarzinho com imagens de Nossa Senhora Aparecida e São João e um mini-vitral de muito bom gosto.

CAPELA_WEB A capela segue estilo da casa, em madeira e tijolo

Sua casa é um museu

A casa reconstruída vai funcionar como museu, mas a casa da família na chácara de Carvalho, já é um embrião de museu. Peças antigas, separadas em espécies e ordenadas harmonicamente, foram se acumulando ao longo dos anos, desde que o engenheiro descobriu sua veia de colecionador.

Ferros a carvão (para passar roupa), máquinas de costura, jogos de porcelana, rádios, enceradeira, escovão de lustrar o chão se perfilam e revelam um mundo rural desconhecido das novas gerações urbanas. “Cada peça tem uma história. Fui juntando, ganhando de amigos, inclusive esta máquina de costura com mais de 70, 80 anos, da minha sogra Tereza, que está com o jogo de bobinas completo, perfeito,” diz Carvalho.

Na sala de visitas, várias cristaleiras antigas comportam antiguidades em bom estado. O acervo todo é datado no mínimo da primeira metade do século 20.

Na sala dos arreios, estão dependurados selas, arreios, chapéus e outros apetrechos de montaria. O acervo se justifica. Comitivas de montaria costumam fazer passagem pela chácara, que fica a 2km da antiga Estrada Boiadeira, e sempre se servem de alguma peça.

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