Diário da Região

24/01/2008 - 01h00min

Um macaco em meu quintal

Lentamente ele desceu da árvore, apanhou algumas jabuticabas, devorou-as e se dirigiu para o fundo do meu quintal em busca de mais frutas. Ainda de costas sentiu a minha presença, virou para trás espantado, rapidamente escalou a árvore e desapareceu no telhado. Naquele olhar assombrado do macaco eu percebi a luta de nossos ancestrais símios que diariamente iam à cata de alimento com ameaça para a própria vida caso não superassem os perigos que encontravam no caminho. Para o macaco do meu quintal, a ameaça não são os predadores selvagens, são os seres humanos. Quando apareceram as primeiras garças nos anos 80 em Brasília houve manifestações de encantamento. A presença das aves demonstrava que ali surgiria uma diversidade da fauna que enriqueceria o lago da cidade. Nada se falava da presença delas como o reflexo da procura de novos locais devido à escassez de alimento no Pantanal. Hoje as mesmas belas aves adotaram a ilha de Fernando de Noronha por seu habitat , atraídas pelo lixo orgânico da unidade de tratamento. Sem predadores, multiplicaram-se e passaram a atrapalhar a navegação aérea. Não se pensou em introduzi-las em uma nova área. Por comodidade estão sendo sacrificadas. Em Uberaba o macaco Chico que fazia a alegria dos seus moradores em um parque, passou a ser rejeitado depois que começou a expressar seu lado selvagem, atacando pessoas. Embora animais só agridam como forma de defesa, ele foi expulso. Em Luziânia, Goiás, a população receosa do contágio pela febre amarela, caça macacos-prego, como se os responsáveis pela propagação da doença fossem eles e não o descaso do ser humano com a natureza que faz proliferar outro agente da propagação da doença nas cidades, o Aedes aegypt.

A presença nas cidades de animais refugiados das áreas desmatadas é cada vez maior. O seu contacto com seres humanos tem sido freqüente e conflituoso.Mesmo os pássaros são abominados por causa de suas fezes, principalmente quando são em bandos como as andorinhas. Poucos são bem vindos pela possibilidade de ataques agressivos e de carregarem doenças, parasitas e carrapatos. São fustigados, perseguidos, atropelados, pela sua presença incômoda, mas não são os animais que invadem o espaço urbano. A presença deles nas cidades é devida ao desmatamento das florestas para produção de alimento e combustíveis para exportação, à expansão das cidades que ocupam áreas remanescentes de florestas, ao uso de agrotóxicos que tornam o campo inóspito. É o ser humano que invade as áreas silvestres com o mau planejamento, com a deterioração do meio urbano e com a ausência de políticas públicas que estabeleçam regras para aumentar as áreas de preservação de florestas e manutenção da diversidade da vida silvestre. O macaco do meu quintal teve uma decepção um dia desses, não havia mais jabuticabas. Foi procurar sua subsistência em outra vizinhança. Para a mudança ainda teve que enfrentar a selvageria urbana.

AGILSON DE ARAUJO
Documentarista, arquiteto, diretor de marketing; Rio Preto (agilsondearaujo@hotmail.com)

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