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Diário da Região

27/03/2016 - 00h00min

Artigo

Um estranho no ninho

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Edvaldo Santos Alexandre Caprio é psicólogo cognitivo-comportamental
Alexandre Caprio é psicólogo cognitivo-comportamental

Na semana passada, nós falamos sobre um dos motivos clássicos que levam o homem a terminar um relacionamento. Ficou claro que as estratégias de posse, dominação, despersonalização e abandono são protagonizadas pelo homem, mas encontram terreno fértil na mulher, que se permite anular, pensando estar, assim, protegendo e promovendo a relação. Conforme prometido, hoje iremos conhecer um dos motivos clássicos que levam a mulher a colocar um ponto final no relacionamento. Mas, para entendermos isso com perfeição, precisamos considerar alguns pontos antes.

Não é novidade que a mulher sofre muito mais pressão cultural e social que o homem. Depois de serem tratadas como escravas, tidas como objetos e levarem os nomes de seus proprietários (maridos) ao longo dos séculos, as mulheres criaram coragem, ergueram seus pulsos, gritaram por igualdade e... conseguiram multiplicidade de suas obrigações. Para que uma mulher conquiste o selo de aprovação família/sociedade, faz-se necessário seguir um rol de exigências. Quando crianças, não podem responder, se sujar, devem ajudar em casa, cuidar do irmãozinho, ser uma excelente aluna, bordar, tocar piano, agradecer e sorrir meigamente. 

Quando crescem, precisam se adequar a prazos para namorar, noivar, casar, ser uma excelente esposa, ter o primeiro filho, ser uma excelente profissional, ter o segundo filho, ser bonita, fazer academia, ioga, pilates, ir à igreja, fazer cabelo, unhas, depilar, levar os filhos (para algum lugar), trocar o gás, cozinhar, faxinar, buscar os filhos (em algum lugar), estudar e mais uma 'pá' de coisas que tornariam esta última página pequena demais. Tudo isso de salto alto, andar linear e um sorriso de orelha a orelha. 

As regras para ser uma mulher feliz e de sucesso tornaram-se inviáveis, para não dizer insuportáveis, e isso tem causado um desmoronamento em massa da autoestima feminina. Cada mulher pensa ser a única a não dar conta do recado, enquanto vê as outras 'se matando' para manter as aparências. Sente-se insuficiente, incapaz e sem atrativos. E, então, sem perceber, escolhe um parceiro que julgue ser o máximo que mereça ter. Esse é um ponto importante. Claro que, na regra geral, a mulher deseja ter ao seu lado um homem seguro, determinado, atuante e inteligente.

Mas, com a autoestima arrasada, evita o perfil que realmente idealiza porque não se vê à altura dele. Pensa que seria questão de tempo até um homem inteligente e seguro perceber sua inferioridade e ir embora. Além do mais, com o tempo passando e a pressão aumentando, ela acaba lidando com as opções disponíveis. É aí que ela encontra, então, aquele sujeito 'bonzinho', aparentemente calmo e fácil de ser controlado, que dá a ela uma sensação de segurança. Namoro, casamento, filhos, bodas de papel e, passado algum tempo, ela passa a ter a nítida sensação de que o sujeito se casou com o sofá da sala.

Procrastinação e indiferença crescem na mesma velocidade que a barriga. A iniciativa do sujeito se resume à troca de canais da TV. Alguns trabalham, outros não, mas a característica marcante desse perfil é a acomodação. Percebendo que não tem um parceiro para andar lado a lado, mas sim carregado, a mulher sente-se sob um grande fardo, que não dá a ela o direito de fraquejar ou cair. O marido começa a se assemelhar a um filho que pouco faz, pouco opina e nada decide. Percebendo que está se tornando o homem da casa, ela tenta lapidar o parceiro e transformá-lo em algo mais parecido com o que idealizava. Mas ele não reage e, a cada tentativa frustrada, sua irritação e insatisfação aumentam.

Gritos e ofensas tornam-se frequentes, e quanto mais ela se descontrola, mais culpa sente. Passa a achar que é uma eterna insatisfeita, que ele, na verdade, é um homem bom e que ela é uma ingrata em não dar valor a tudo o que tem. Por fim, esgotada, procura ajuda e descobre o que a levou a fazer a escolha errada. Ciente de sua história e com mais coragem, consegue ter uma conversa séria, escuta promessas que jamais serão cumpridas e enfrenta uma grande resistência. Mas ao perceber que uma vida a dois é feita de sonhos compartilhados ao invés de serviços prestados o encanto se desfaz por completo. 

Livre do peso extra, ela percebe que não está mais cansada. Não sente a ausência de quem já não estava presente e se põe a andar novamente. Passo a passo ela reencontrará seus sonhos esquecidos, seus amigos perdidos e, finalmente, entenderá que, enquanto não aprendermos a viver bem sozinhos, estaremos sempre com as pessoas erradas quando a certa surgir. E nem perceberemos quando ela passar por nós e for embora, levando consigo uma história de amor incrível que, infelizmente, nunca será vivida, nunca será contada e permanecerá apagada das mentes e corações daqueles que tinham um mundo pela frente e um futuro diferente para compartilhar.

 

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