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Diário da Região

10/03/2016 - 00h00min

Painel de Ideias

Sapato sinistro

Painel de Ideias

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Quando fez doze anos comprou uns sapatos bem legais. A mãe recomendou que pedisse dois números maiores, por causa do crescimento. O que sobrasse no bico preencheria com jornal amassado. Na loja, sentiu-se por cima, entre montões de lindezas. Mas a pressa da vendedora abreviou-lhe a delícia de estar pertinho do céu e apontou logo o par que lhe parecia ideal: amarelado, brilhante, sem cadarço, comprido como a Sexta da Paixão. A turca disse que estavam na moda, tipo esporte e por isso valiam uma nota, justo o que revelara ter no bolso, parte da renda mensal com entrega de marmitas e a caixa de engraxate.

Nunca tivera sapatos de verdade, só sandálias com solas de pneus e alpargatas de lona que estragavam logo: descoravam e desfiavam feito um sapo de sisal. Usava-as somente na escola. Naqueles tempos, calçados de couro era um luxo além da conta. Agora não, galante nos pés, sentiu-se enfim um rapazito e quis mostrar a novidade à molecada da vila.

Era noite, eles riam perto dum poste onde aleluias brincavam de ciranda. Combinavam ir à zona de mulher da vida pra buraquear. Chamaram-no. As casas raleavam num recanto chamado Curva da Galinha, perto duma moenda onde um mulo pensativo extraía da cana o caldo tão doce que desmentia as pelejas salgadas da vida. Nunca aceitara convites tão de adultos, mas dessa vez, armou-se de coragem, com os pisantes de sola escorregadia triscando de novos, a deslizarem no cimento da calçada.

Chegaram arredios por becos sinistros. Vez por outra, um esbarrava nalguma coisa cutucando o sentimento de aventura. Em revezamento, encostavam-se às janelas para ouvir confissões amorosas, risos lascivos e tintins em copos de cerveja. De repente, o grito aflito dum garoto: “O inspetor de menor!”. Meu amigo amoleceu na debandada, aéreo em datas baldias, troncos dormidos, arbustos sombrios, campo de várzea, atoleiro do riacho e trilhas agudas. Ao ver-se salvo e a sós consigo, sentiu-se o pior dos cristãos, pois infringira não sei quantos mandamentos.

Chegou em casa hesitante, a convencer-se de que nada houvera de anormal. Viera suado do salva-pega e futebol de meia, confabulava consigo, a disfarçar o terror. Demorou-se no copo d’água. Na sala, a família ria do “Balança mas não cai”, da Rádio Record. Foi ao quarto, acendeu a lamparina e... cadê o sapato do meu pé esquerdo? Virou que revirou a memória e era só um borbulho de fantasmas a se remexerem.

Na manhã, a mãe adivinhou o infausto, mas nada perguntou, impondo com silêncio o mais gritante dos castigos. O meu amigo jamais voltou àquele ermo de vila em resgate ao sapato perdido. Descansa num nicho encoberto pelo pó da infância. Aquela noite o fez entender, ante a franqueza dos fatos, que jamais seria um garoto inocente. Buscá-lo, confissão de culpa. E só bandidos tolos retornam aos cenários de seus crimes.

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