Diário da Região

08/01/2005 - 00h50min

Por um fio

De maneira extremamente humana e com sensibilidade tocante, o médico oncologista Dráuzio Varella, como expressivo descendente de espanhóis, descreve-nos em seu livro ?Por um fio? o impacto, a desolação e a impotência de pacientes e familiares frente a dor e perspectiva da morte. Nesses trinta anos de experiência clínica, descreve-nos o comportamento de pacientes frente ao que mais têm de precioso: a vida. Ora de aceitação abnegada que nos comove até às lágrima, ora de desespero, desolação e revolta. Assim como o comportamento dos familiares, frente ao câncer e a aids, que assolam a humanidade de maneira brutal: certas vezes frio, indiferente, chegando ao abandono, graças a mágoas profundas, geradas de relacionamentos deteriorados; outras vezes de dedicação profunda, de ternura extrema, com afagos e carícias, até o último momento, de emocionar o mais frio e distante dos seres humanos. Muitos desses relatos levam o mais empedernido leitor às lagrimas. Não só daqueles pacientes que, apesar da luta, garra e obstinação, caem irremediavelmente ?frente a essa soturna deusa dos destroços, chamada morte?. Como aqueles que, graças a dedicação extrema de médicos e enfermeiros, aliada e avanços espetaculares de medicina e a dedicação de familiares, encontraram a cura. Esses últimos mudam radicalmente o modo de pensar, agir e sentir, frente a vida e o relacionamento com os que lhe são caros. Tudo muda em sua vidas: passam a não sofrer por antecipação, emocionam-se com o entardecer, com a primavera, com o canto dos passarinhos. Dedicam-se mais aos familiares desprendendo-se das coisas materiais, que muitas e muitas vezes foram prioritárias em sua vidas.

Mostra-nos também, que o médico não se atém apenas ao diagnóstico, mas, por contingência, ao prognóstico, muitas e muitas vezes mais difícil que o diagnóstico. Além de curar, espera-se do médico o alívio do sofrimento físico, psicológico e emocional. Muitos médicos curam a doenças esquecendo-se de curar o paciente: frágil frente a dor e impotente frente a adversidade. Mas, a parte mais emocionante do livro é a impotência do autor, frente ao câncer maligno, de pulmão, de seu querido e fraterno irmão Fernando, médico como ele, charmoso, elegante, com apenas 45 anos, fumante inveterado. Quantas vezes pediu para o irmão abandonar o vício tão insano. Mas tudo foi em vão. Frente ao terrível diagnóstico, chegam as lembranças de Dráuzio: a perda da mãe com 32 anos, deixando-o órfão aos 5 anos; a perda da avó paterna, sua segunda mãe; as traquinagens da infância...

Já débil, magro e careca, Fernando um dia olhou o irmão nos olhos e exclamou: ?todo médico deveria passar pelo que estou passando, experimentar na carne a fragilidade que a doença traz, as agruras das dores persistentes, as náuseas, o mal-estar, as incertezas, sentir nostalgia da felicidade despreocupada de outras épocas; amargura ao imaginar o vazio que nossa ausência poderá deixar nas pessoas queridas; o desejo insensato de acordar deste pesadelo?. Durante toda a doença, abraçaram-se, choram juntos, baixinho, frágeis e impotentes como muitas vezes viram seus pacientes nos longos anos juntos, na clínica. Viam-se todos os dias e permaneciam de mãos dadas, preparando seus espíritos pelo que viria, de maneira inexorável.Nos últimos momentos, Fernando confessa ao irmão: ?sabe o que invejo em você como médico? A sua sensibilidade. Sempre admirei esse dom, agora pude comprová-lo pessoalmente?. ?Por um fio? deve merecer de todos nós, que apreciamos a boa leitura, de todos os médicos, não apenas os oncologistas, momentos de reflexão, para que o lado humano e pungente da vida não se esgote nunca em nossos corações.

CARMEN SOLER Y SOLER
Ex-secretária municipal de Cultura

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