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Diário da Região

12/01/2016 - 00h00min

Painel de Ideias

Pobreza de espírito supera a de recursos

Painel de Ideias

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Clarice Lispector soube – como poucos o fizeram – retratar um traço essencial da sociedade brasileira: a exclusão social. Sua personagem Macabéa passa pela vida sem entender o real sentido da existência: sofre abusos na infância, é feia, apresenta dificuldades intelectuais e não encontra o amor. No fim, morre atropelada e encontra, no atropelamento, a sua hora da estrela. De fato, o Brasil configura um País injusto e omisso em relação aos milhões de Macabéas que vagam pelo solo pátrio. O País do futebol e do jeitinho tem o desafio urgente de combinar democracia com eficiência econômica e justiça social. Assim, torna-se imperativo reduzir a distância entre dois brasis: um vai às compras, gera renda e enfrenta o temor da violência; o outro dribla a falta de recursos e alimenta devaneios sebastianistas.

Desde 1500, riquezas são diferenças em solo pátrio. A trupe europeia, argonautas em busca do velocino de ouro nestas paragens paradisíacas do novo mundo – transmutado em pau-brasil, cana-de-açúcar, ouro – erigiu sob o sol dos trópicos um País atrasado, forjado a partir do sofrimento de negros, de índios e de pobres. O país nasce legitimado a partir da criminosa distribuição de poder e de terra, tudo com a benção da santa-madre-igreja-católica. Amém. E o português, já disse o poeta, vestiu o índio naquela manhã de chuva. Que pena.

Hoje, em qualquer canto, a miséria desnuda sua face famélica e nefanda no rosto anônimo de nossas Macabéas que vagam em busca de emprego, de comida, de amor, de inclusão. Embora ostente o título de BRIC e esteja em situação até confortável no ranking das maiores economias do mundo, o Brasil despenca quando se medem a proporção de pobres ou o índice de desenvolvimento humano. Ademais, o rendimento da elite supera em dezenas de vezes o da maioria carente, e os eleitos (poucos) detêm recursos superiores ao montante dos 50% mais pobres. Este exército de desvalidos teria sua tragédia social aplacada se uma quantia ínfima da renda nacional fosse redistribuída. Contudo, elite ainda opta pela concentração, pelos gastos com segurança, pelas grades de proteção dos condomínios. Que emblemático.

A morte não causa mais espanto. Fracos, doentes, aflitos, carentes carecem de educação, de água, de cidadania. Milhões de brasileiros pobres, ignorantes, pouco ou nada escolarizados (Macabéas) perfilam um painel grotesco de exclusão: sem estudo, com taxas absurdas de mortalidade infantil e, em muitos casos, proventos diários insuficientes para aplacar a obesidade criminosa de cada usuário do drive de redes de fast-food. De certa forma triste e emblemática, os ricos do lado de cá do Atlântico (em sua maioria) chupam sorvete importado para aplacar o calor, perfumam-se com fragrância importada para aplacar o fedor e disfarçam imperfeições estéticas com base e pó importados – já que a feiura e o fedor da alma não se ocultam. Quantas mazelas.

Gigante pela própria natureza, o País do futebol, do carnaval e das novelas globais resiste à necessária repartição da riqueza. Não educa os pobres, não financia moradias, não concede dignidade a seu povo. Porém, esbanja recursos na esfera pública e na privada: da compra de aviões e de deputados à aquisição de vestimentas vendidas em dólar nos templos de consumo. Enfim, até a pobreza tupiniquim denota duplicidade: carência de recursos de uns, falta de solidariedade de outros. Pobreza material, pobreza de espírito. Cada pobre com a sua. E você? Já encontrou a sua hora da estrela hoje?

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