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Diário da Região

20/03/2016 - 00h00min

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Pilá café

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GUILHERME BAFFI NULL
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O último gole de café torrado e moído na roça, presente do meu amigo e professor Antônio Sinhorini, tomei não faz muito tempo e já sinto saudades. Café puro, forte e saboroso. O Sinhô tem uma propriedade no antigo bairro rural da Matinha e, para perpetuar a tradição, mantinha duzentos pés da rubiácea para consumo próprio. Na época da florada, eu era convidado para sentir o perfume das florzinhas.

Quando os grãos estavam amadurecendo - cereja -, também era convidado para admirar os galhos tombados nas leiras pelo peso dos bagos. O professor, como todo bom caipira, também se adequou aos tempos modernos. Para beneficiar não usava pilão, mas, sim, um beneficiador ligado na tomada. Para a torrefação, deixou de lado o antigo torrador para usar equipamento elétrico.

Antigamente, nas casas dos caboclos, um dos equipamentos imprescindíveis, entre outros utensílios, era o pilão. Nele, socava arroz, café, milho pra canjica e também no preparo da saborosa paçoca de carne seca. Os pilões eram verdadeiras obras de arte. Esculturas entalhadas em madeira, afinal, era a grande ferramenta a serviço do capiau. Carapinas usavam sobras de troncos de aroeiras para entalhar com esmero e gosto as peças.

Ainda hoje, me emociono ao encontrar esquecido em algum canto esse objeto que tanto ajudou na construção daquilo que somos hoje. Penso que, se ele tivesse alma e pudesse falar, diria que tudo tem seu tempo. Que entende que o progresso é desejo do ser humano e que se sente feliz por ter feito parte de momentos importantes na vida do caipira, no desenvolvimento do nosso sertão. Foi um ciclo que se fechou.

Ele tinha um parceiro inseparável: a mão de pilão. Na forma de cilindro de madeira de tamanho variado, torneado na base do enxó e da plaina, era com ela que o caboclo se posicionava ao lado do pilão cheio de cereais em casca. Pacientemente, ia socando até que a casca se separasse dos grãos. Trabalho lento, de muita paciência. No caso de arroz, se socasse com muita força, corria o risco de os grãos se quebrar e se tornar quirela. Pouca força, apareciam os “marinheiros” - arroz mal descascado. Esses eram desprezados na hora da escolha.

As moças eram as preferidas para o trabalho, devido à maneira delicada como atuavam. De frente uma pra outra e o pilão no meio, iniciavam o ritual. Com duas mãos de pilão, uma batia, depois a outra, e assim sucessivamente, até que o cereal estivesse limpo. Esse ritual demorava horas. Enquanto isso, e para passar o tempo, cantavam. Era doce ouvi-las cantar afinadas modas caipiras, enquanto pilavam.

Ao término, os grãos iam para dentro do torrador para o rito da torra. Esse serviço também exigia sensibilidade. Com pouco tempo de torrefação, os grãos ficavam marrons e amargos. Se passasse do ponto, queimados. Só quem sentiu o aroma do café enquanto era torrado sabe do que estou falando. A fumaça que subia da torra espargia o cheiro maravilhoso a quilômetros de distância.

O tempo fez com que o cafezal do professor Sinhorini fosse erradicado. Ah, o tempo! Esse inelutável! Deixou em mim tantas recordações. Passou tão rápido que levou com ele as imagens das mocinhas pilando. Levou também as mulheres sentadas no terreiro, à sombra das bananeiras, torrando café. Porém, hão de ficar comigo para sempre doces lembranças de um tempo que não volta mais!

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