Diário da Região

28/01/2003 - 00h05min

Perspectiva de mudanças

Caio Prado Junior, historiador que inaugurou a moderna historiografia brasileira com “Evolução Política do Brasil” (1933), já destacava o papel exercido pelo poder local na afirmação política, primeiro dos colonizadores portugueses, depois dos nativistas brasileiros. Originárias das relações estabelecidas num mundo essencialmente rural e marcado pela ausência do poder da metrópole, as câmaras municipais constituíam a própria representação do sistema político colonial. Dizia Caio Prado que “se dentro do sistema político vigente na colônia só descobrimos a soberania, o poder político da Coroa, vamos encontrá-lo, de fato, investido nos proprietários rurais, que o exercem através das administrações municipais” (1988: 31). Talvez de maneira menos realista e mais culturalista que “Evolução Política do Brasil”, “Raízes do Brasil” (1936), de Sérgio Buarque de Holanda, também determina com suficiente clareza vários aspectos históricos que, em última análise, confirmam a importância do poder local na gênese de nossa cultura política. Salientando que as pretensões aristocráticas foram tradicionalmente o apanágio de nosso patriarcado rural, afirmava Sérgio Buarque de Holanda que, até a chegada da corte portuguesa em 1808, os domínios locais “eram, pela solidez de seus estabelecimentos, considerados como a mola real da riqueza e do poder na colônia” (1977: 48).

Mais à frente, Caio Prado e Sérgio Buarque novamente reconhecem, cada qual a seu modo, o caráter regional, específico, assumido pelas insurreições da Cabanada, Balaiada, Praieira, Farroupilha; o que, em tempos de centralização imperial, refletia exatamente a necessidade autônoma dos interesses e projetos políticos locais. Distante da pretensão de meramente reduzir a vastidão de “Evolução Política” e “Raízes do Brasil” a simples citações, busca-se, através de sólidos referenciais historiográficos, a confirmação do poder municipal como o locus histórico da política brasileira. A par disso, também implica notar que esse locus apresenta-se hoje essencialmente citadino, urbano, vinculado às demandas e necessidades surgidas nas cidades, diferentemente do contexto rural analisado pelos clássicos historiadores. Ainda que se reconheça a coexistência de formas políticas pretéritas (geralmente assentadas na autoridade exercida por uma aristocracia local) no jogo político de diversas cidades. De qualquer maneira, a compreensão da cidade como locus político deveria, ao menos em tese, ampliar as leituras sobre a perspectiva de mudanças do novo governo. Até o presente momento as abordagens sobre o governo Lula, delineadas ora pela esperança, ora pela desconfiança, concentram-se somente em questões pontuais como: taxas de juros e câmbio, risco Brasil, presidência da Câmara, Fome Zero, aposentadoria dos militares, bomba atômica...

Talvez por isso, a criação do Ministério das Cidades tenha passado praticamente desapercebida; chamando a atenção o fato de ser um artigo do senador Romeu Tuma (PFL/SP) praticamente a única referência significativa a tal ato. Aliás, especificamente sobre o tema, o texto não traz nada de novo - apenas invoca instrumentalmente a execução do Estatuto da Cidade -, se convertendo, sim, em um aceno político de personagens que jamais se distanciaram completamente do poder. Principalmente se levarmos em consideração a trajetória daquele partido. Diante da estreiteza temática dos debates e considerando a relevância desempenhada - historicamente - pelas cidades, seria interessante lembrar que o Partido dos Trabalhadores experimentou a aspereza do poder e se consolidou como força política relevante no cenário nacional, justamente, através dos projetos locais, das prefeituras. Sua força eleitoral vem daí. Sua guinada ao centro político, fato que causa reações diversas, teve como laboratório as experiências administrativas e as alianças municipais. É possível, portanto, que o Ministério das Cidades simbolize, de modo mais claro e preciso, as reais intenções da revolução democrática

Aviso: Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não representam a opinião do Diário da Região. É vetada a inserção de comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros. O Diário da Região poderá retirar, sem prévia notificação, comentários postados que não respeitem os critérios impostos neste aviso ou que estejam fora do tema proposto.

Di´rio Im&ocute;veis

Di´rio Motors

Esqueci minha senha
Informe o e-mail utilizado por você para recuperar sua senha no Diário da Região.

Já sou assinante

Para continuar lendo esta matéria,
faça seu login de acesso:

É assinante mas ainda não possui senha? Clique Aqui!
É assinante mais quer redefinir sua senha? Clique Aqui!

Assine o Diário da Região Digital

Para continuar lendo, faça uma assinatura do Diário da Região e tenha acesso completo ao conteúdo.

Assine agora

Pacote Digital por apenas R$ 16,90 por mês.
OUTROS PACOTES


ou ligue para os telefones: (17) 2139 2010 / 2139 2020

Cadastro Grátis
Diário da Região
Clique no botão ao lado e agilize seu cadastro importando seus dados básicos do facebook
Sexo
Defina seus dados de acesso