Diário da Região

23/02/2006 - 01h05min

Outra cidade é possível

A sustentabilidade das cidades neste século que se inicia é, sem dúvida, o maior de todos os temas, porque a todos os temas envolve. Violência, marginalidade, densidade demográfica, ocupação desordenada do solo, poluição de todo tipo, produção de lixo, escasseamento dos lençóis freáticos, asfaltamentos desnecessários e uma infinidade de outros problemas, reclamam discussões e soluções que já não podem mais tardar. Neste sentido, chama atenção o não protagonismo de Rio Preto como ponta de lança na construção desta nova cidade. A importância de Rio Preto no cenário interiorano de São Paulo nos impõe a todos a obrigação de nos pensarmos como uma cidade que se obriga ao dever de viabilizar-se neste novo contexto de fragilidade ecológica. Pensar o desenvolvimento desta cidade, referenciada em modelos hoje provados serem inviáveis e impraticáveis, modelos que privilegiam o automóvel como meio preferencial de transporte (32 novos carros circulam a cada dia na cidade), o shopping como espaço mais valorizado de lazer, a diminuição sistemática dos espaços públicos e coletivos de convivência, só nos distanciará do que mais sustentável vem sendo pensado no mundo e no Brasil à respeito do tema. É urgente Rio Preto se pensar como um modelo de cidade sustentável. Primeiro deve se ter em mente que, um projeto como este não se desenvolve de um ano para o outro, nem de uma legislatura pra outra. Há que existir um compromisso supra-partidário em torno do projeto.

Criação da agroecologia. O cultivo dentro da cidade de uma agricultura de hortaliças, frutas, flores e ornamentais, grãos, ervas medicinais e pequenos bosques. Isto já acontece em São Paulo, Curitiba e Rio de Janeiro. O estimulo à utilização do sanitário seco compostável, ele transforma as fezes em adubo orgânico, evitando o desperdício de água e a poluição dos rios. Criar um decreto que obrigue os imóveis com mais de 500 metros quadrados de área impermeabilizada, incluindo os telhados, a construírem um sistema de capitação de água que venha a retardar o escoamento das águas nas redes de drenagem, evitando enchentes e permitindo o uso doméstico da água de chuva. Criar campanhas estimulando a população a andarem de ônibus e bicicleta. Melhorar as condições para o transporte coletivo, tendo em vista que este é precário e está aquém do que esta cidade pode oferecer. Desenvolver linhas de bondes sobre trilhos que cortariam a cidade norte/sul, leste/oeste. Criar ciclovias, diminuindo os espaços para os automóveis e ampliando os espaços para os ciclistas. Plantio de corredores de árvores por toda a cidade, tornando mais fresco o clima urbano e estimulando o deslocamento a pé pelas calçadas. Não demorará muito para que Rio Preto se transforme num lugar ruim de se morar, com um trânsito impossível de se conviver, com um calor insuportável - também por causa do pouco caso que a cidade tem com o cultivo e preservação de suas árvores. Termino lembrando que, cabe as escolas e faculdades o encabeçamento desta discussão. Se as escolas não forem além de ensinar o que sejam mitocôndrias, ou as faculdades de não assumirem seu papel como laboratório de soluções, terminarão como velhas lembranças de uma sociedade que está deixando de existir. Numa palavra, Rio Preto, sua população e seus representantes políticos, precisam deixar claro qual é o papel e sua relevância no interior paulista neste século.

LUCIANO ALVARENGA
Professor de Sociologia na Unilago e Intelectus e História Econômica no Dom Bosco lucalvarenga@yahoo.com.br

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