Diário da Região

11/12/2011 - 01h52min

 

Os olhos azuis de Carmela

 

Algo de extraordinário havia acontecido naquela aurora. A estrela da manhã ainda brilhava no céu dependurada por cordões invisíveis junto aos demais astros. O Sol, timidamente, lançou os primeiros raios e assim ficou com meio corpo preso no horizonte sem entender o que acontecia. Nem subia e nem descia. Permanecera ali por muito tempo “entalado” entre o céu e a terra. A Lua, que passara a noite inteira a resplandecer e a brincar com a via láctea, sentiu sono, mas não lhe foi permitido repousar. Teria que, por mais alguns instantes, continuar no firmamento, pois algo grandioso iria acontecer. A Via Láctea também permanecia de prontidão com suas milhares de estrelas fulgentes estáticas, se perguntando o que fazer. Foram aconselhadas que permanecessem como estavam, já que todo o universo estava silente. E quando tal fato acontecia, podiam ter certeza que, no mínimo, uma nova estrela iria nascer! Enquanto isso, na terra, a brisa da manhã se aquietara nas folhas das palmeiras mais altas. As árvores não movimentavam uma rama se quer em respeito ao grave momento que se avizinhava. Os pássaros em seus ninhos não se atreviam a alçar voos em busca de alimentos. As águas dos riachos cessaram seus movimentos, acompanhadas pelas cachoeiras, que aproveitaram para tirar um cochilo e, num momento de pura magia, adormeceram recostadas nas pedras dos rios. Os animais nas florestas sabiam que tinham que se levantarem, sonolentos que estavam, repousavam em suas tocas tépidas e ansiosos aguardavam o que estaria por vir.


Era estranho. Muito estranho! O que estava acontecendo. Ninguém podia imaginar e não tinham a mínima ideia porque o sol permanecia preso no horizonte por tanto tempo. A barra da manhã chegara e ali permanecia como que pasma, sem poder dar prosseguimento aos seus afazeres, que era o de iluminar as coisas que existem na terra. Um astro, cochichando a outro, dizia: ordens superiores! Ordens superiores! Naquele tempo, havia poucas cidades, mesmo assim as poucas que haviam permaneciam com suas luzes bruxuleantes de um amarelo pálido acesas nos postes tortos da vida. Os homens não saíam de suas casas para o trabalho e no campo, a relva permanecia úmida com o sereno da madrugada. O orvalho, como sempre orgulhoso, aguardava ansioso o primeiro raio do Sol para se transformar em minúsculos e resplandecentes brilhantes, mesmo que por instantes. Como disse Vinícius: De repente... Não mais que de repente. Tudo mudou. A luz que estava ausente se fez presente. O sol que, adormecido no horizonte, aguardava uma voz de comando para completar seu ciclo, despertou. A lua pôde finalmente se despedir do dia e repousar onde dorme a noite. O universo, que estava silente, ouviu em alto e bom som o choro da menina que vinha ao mundo naquele instante. Ao ver a luz pela primeira vez, pediu aos deuses dois pedacinhos do azul do céu, no que foi prontamente atendida. E o céu, agradecido por tamanha beleza infantil, sentiu-se orgulhoso de se ver representado nos olhos doces e ternos de Carmela Garçom. Carmela menina levada da breca, menina sapeca, como diriam seus pais. Sentada à beira da estrada via a boiada passar. Sentiu o tempo passar e Carmela mocinha encantava a todos. E o tempo passou. Muito amou e muito foi amada! Carmela tornou-se professora, que virou diretora. Com a sabedoria dos grandes mestres dizia:“Feliz daquele que aprende enquanto ensina.” E ela aprendeu. A moça Carmela, por opção, não se casou, pois tinha uma missão: cuidar da mãe como quem cuida de anjos encanecidos. Um dia, já bem tarde, quando ela se for, escrevam em sua lápide: “Podem tirar-lhe tudo, só não tirem o azul dos olhos de Carmela”.


JOCELINO SOARES Artista plástico. Membro da Academia Rio- Pretense de Letras e Cultura(www.jocelinosoares.com.br)


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