Diário da Região

03/02/2008 - 00h44min

O mergulho inesquecível

Passei três réveillons no Parque Estadual da Ilha Anchieta, litoral norte de São Paulo, com amigos do Instituto Florestal. A lancha do Instituto nos pegava em Ubatuba. Do continente à ilha, levávamos de 20 a 30 minutos. Em uma das vezes, meu filho caçula, com 8 anos, estava comigo. No meio da viagem, fomos surpreendidos por um grupo de homens ao mar. Nadavam vigorosamente, rompendo ondas. Manoel, diretor do parque, disse que era um grupo de soldados do Corpo de Bombeiros de Mogi das Cruzes. Eles encerrariam o treinamento na ilha. Passariam uma semana em estudos teóricos e atividades práticas, de mergulho e salvamento sob a água. Quase uma hora depois que havíamos chegado à ilha o menino me chamou ao píer, espécie de ancoradouro que se estendia por uns 20 metros para dentro do mar, onde a lancha atracara. Os primeiros recrutas se aproximavam a nado. Ficamos a observá-los. Os que chegavam à areia, tombavam extenuados. Para nossa surpresa, os cinco últimos foram castigados com flexões de braço. Minha admiração por aqueles soldados cresceu muito ali.

Naqueles dias, o menino acabou adotado como mascote por eles. Acordava cedo, 7 horas, e ia para o alojamento. Eles também acordavam cedo. Nós, os amigos do diretor, dormíamos até mais tarde. Entre as atividades do treinamento militar, havia o mergulho sem equipamento de oxigênio. O tempo que permaneciam submersos nas tarefas era angustiantemente prolongado a nosso ver. Em uma das manhãs, o menino entrou no meu quarto e me chacoalhou.
- Vem pai, vem logo.
Fingi não ouvir. Ele insistiu.
- Anda pai, eles estão chamando.
Não tinha jeito.
- Eles quem?
- Os bombeiros.
Pulei da cama preocupado com o que pudesse estar ocorrendo. Segui o menino, que disparou na frente.
- Não falei, não falei? - Ele gritava de longe enquanto o bando de marmanjos ria dentro da água. Ele correu pelo píer e saltou para o mar. Um calafrio mordeu minha barriga. Aproximei-me da beira da laje. Era alto demais. Lá embaixo, os policiais estavam em círculo, e o menino, no meio. O desgraçado nadava bem.
- Eles dizem que você não pula. Pula sim, né, pai?
Os malditos açulavam:
- Pula nada. Não tem coragem.
- Tem! Meu pai tem coragem.
Ele estava errado. Eu não tinha.
- Mostra para eles, pai.
Eu vacilava. Os policiais gargalhavam. O menino sofria. A voz dele saía miudinha.
- Pula pai, por favor. Você tem muita coragem.
Ameacei pular. Todos riram.
- Vai pular em pé? - provocaram.
O menino rebateu.
- Vai nada, vai mergulhar de cabeça. - E olhou para cima: - Né, pai?
Tive vontade de gritar que não. Mas pulei. De cabeça. Deus que se virasse. Demorei-me a ficar ?de bem? com os bombeiros. Mas o abraço que ganhei do menino me aquece até hoje.

JÚLIO CEZAR GARCIA
É repórter especial do Diário

Aviso: Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não representam a opinião do Diário da Região. É vetada a inserção de comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros. O Diário da Região poderá retirar, sem prévia notificação, comentários postados que não respeitem os critérios impostos neste aviso ou que estejam fora do tema proposto.

Di´rio Im&ocute;veis

Di´rio Motors

Esqueci minha senha
Informe o e-mail utilizado por você para recuperar sua senha no Diário da Região.

Já sou assinante

Para continuar lendo esta matéria,
faça seu login de acesso:

É assinante mas ainda não possui senha? Clique Aqui!
É assinante mais quer redefinir sua senha? Clique Aqui!

Assine o Diário da Região Digital

Para continuar lendo, faça uma assinatura do Diário da Região e tenha acesso completo ao conteúdo.

Assine agora

Pacote Digital por apenas R$ 16,90 por mês.
OUTROS PACOTES


ou ligue para os telefones: (17) 2139 2010 / 2139 2020

Cadastro Grátis
Diário da Região
Clique no botão ao lado e agilize seu cadastro importando seus dados básicos do facebook
Sexo
Defina seus dados de acesso