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Diário da Região

07/08/2016 - 00h10min

Artigo

O humano desejo pelo sagrado

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Johnny Torres/Divulgação Érico Fumero é doutor em Filosofia pela Universidade de Santiago de Compostela Espanha
Érico Fumero é doutor em Filosofia pela Universidade de Santiago de Compostela Espanha

Houve uma época na história em que o sagrado estava em toda parte e as pessoas se ajuntavam para prestar-lhe culto. Aos poucos fomos perdendo o acesso à experiência do sagrado. E acabamos também esquecendo uma maneira importante de experimentar nossa condição humana. Apesar disso, estou convencido de que existe em nós o anseio, um desejo profundo e muito íntimo por experiências com o sagrado. E elas não precisam necessariamente ser moldadas como explicitamente religiosas.

Albert Einstein, por exemplo, um dos maiores gênios da história, em um texto célebre e muito pouco conhecido, disse: "Afirmo que o sentimento religioso cósmico é o motivo mais forte e mais nobre da pesquisa científica". Apesar de ser cientista, quando Einstein fala do "sentimento religioso cósmico", ele não o faz a partir da ciência. Mas testemunha algo profundamente humano: o anseio pelo Totalmente Outro. Que também de novo pode realizar-se no fascínio de um céu estrelado, na beleza das cores do nascer do sol, ou na grandiosidade de monumentos como as pirâmides do Egito, ou as Casa Milà de Gaudi em Barcelona. Muitas pessoas descobrem modos próprios, por vezes de uma natureza religiosa apenas sutil, de experimentar o sagrado em suas vidas. 

Passada a época dos cultos, hoje nós podemos observar a tendência para interiorizar o sagrado ou o rebaixamos trivialmente a "coisas mundanas". De um lado, uma atitude de interiorização mística, na qual o "sagrado" é usado para designar um ser supremo, o qual o ser humano se dedica total e inteiramente ou a um "vazio" que o liberta. De outro lado, o sagrado passa a ser a coisa ou a ideia que marca a conduta da pessoa. Para um namorado, é a amada, para o artista, a obra em que ele trabalha, para o avarento, o dinheiro que possui, para o patriota, o bem da pátria, para o revolucionário, a ideia de revolução.Cabe pensar o que disse o poeta Novalis:

"Onde os deuses estão ausentes, aí circulam os fantasmas". O que foi feito da experiência do sagrado? E quando fazemos do sagrado uma coisa mundana? Essa trivialização ou secularização do sagrado faz com que ele perca sua importância. Pois o que faz com que o sagrado seja fascinante e digno de respeito é o fato de ele não estar sob nosso controle. O sagrado mesmo só produz efeito em nós quando está fora do nosso alcance, da nossa manipulação. Quanto mais clara e pura lhe aparece a experiência do sagrado, mais se torna evidente a pequenez e o nada do ser humano. O sagrado sempre nos é superior, ele opõe-se à nossa estreiteza e limitação.

Em A sagrada face, a poeta Adélia Prado assim se expressa: "Então é este o esplendor, (...) / Esta doçura nova me empobrece (...) / Pobre e desvalida entrego-me ao que seja / esta força de perdão e descanso". A entrega da "pobre e desvalida" poeta é uma experiência avassaladora, e junto a este sentimento de ser pobre e desvalida há repouso e conforto. Enfim, a experiência do sagrado é sempre um mistério, o qual não pode ser decifrado, e assim deve permanecer. Mas se dele participamos quando nos abandonamos, sentimo-nos como parte dele. Não renunciemos ao desejo daquilo que nos supera. Esse desejo figura entre as experiências mais fundamentais de nossa vida, quando podemos nos sentir muito perto do divino. 

 

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