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Diário da Região

22/03/2015 - 00h04min

Artigo

O causo da cirurgia

Artigo

Ganhei do meu amigo Jair Nardo uma coleção do escritor Cornélio Pires. Para quem não conhece, foi o primeiro a apresentar nossa moda caipira à sociedade paulistana nos idos de 1910, na então Faculdade Mackenzie. O show fez tanto sucesso que Cornélio não parou mais de divulgar a boa e velha música que fala direto na alma. Foi ele também que, com dinheiro do próprio bolso, gravou em disco de 78 rotações a primeira moda. A dupla escolhida foi Mandi e Sorocabinha cantando "Jorginho do Sertão". As primeiras 5 mil cópias se esgotaram rapidamente, obrigando-o a imprimir mais discos. Desta feita, foram 25 mil. Diante da coleção "Conversa Caipira", da Editora Ottoni, me senti frente a um pé de jabuticaba carregado de frutas frescas, prontas para ser colhidas. Escolhi para ler "As Estrambólicas Aventuras de Joaquim Bentinho - O Queima Campo". Fui sorvendo cada página. 

Em dado momento, meu coração pulsou mais célere - deparei com uma história que eu já conhecia e imediatamente me vi numa sala, e sentados em volta de uma mesa tosca, alumiados pela luz fraca da lamparina, meus pais, avós e tios conversavam animadamente. Meu tio Servino contou esta história por mais de uma vez e em todas eu acreditava. Dizia que foram fazer uma derrubada com uma família de italianos. Meu tio tinha um facão tão afiado, capaz de cortar um fio de cabelo em oito partes antes de cair ao chão. Certo dia, enquanto trabalhavam, meu tio sacou do facão para cortar um cipó que estava atrapalhando. Ao lado dele, um italiano por nome Vitório. Inadvertidamente, o coitado se vira. A aba do chapéu foi cortada e junto com ela o nariz do homem. Desespero total. O rapaz começa a gritar de dor, leva a mão ao rosto para estancar o sangue. 

Meu tio pede calma dizendo que vai dar um jeito. Todos correm para procurar o bendito nariz entre as folhas secas. O tempo passava rapidamente e, se não o encontrassem, ficaria cada vez mais difícil "colar" novamente.  Foi aí que alguém teve a ideia de espalhar entre as folhas mortas e galharias um punhado de rapé. Foi jogar e o nariz que a essa altura já estava cheio de formigas deu um espirro. Ainda estava quente. Retiraram as formigas e outras impurezas e o colocaram no local de origem. Cortaram um pedaço de camisa e deram várias voltas na cabeça para que ficasse preso e "colasse" na cara do italianinho. 

Meu tio disse ao infeliz que esperasse alguns dias para tirar a atadura. Todo dia, o homem colocava a mão para ver se estava firme no local. Até que um dia, sentindo que estava tudo bem, retirou a bandagem e foi para frente do espelho para ver o resultado. A cirurgia improvisada no meio do mato teve excelente resultado. O nariz estava firme no lugar. Foi verdadeiro milagre. Tudo estava lindo e maravilhoso, só tinha um porém. 

Na pressa e no improviso, não atentaram para detalhe extremamente importante: colocaram o nariz do Vitório ao contrário. O italianinho ficou tão muito furioso com o resultado que meu tio teve que se mudar para uma fazenda bem distante, para não ser morto. O Vitório se acostumou com o nariz virado pra cima. Só não podia andar de chapéu, fumar, tomar banho ou espirrar. A cada espirro, o chapéu caía da cabeça. Cheguei à conclusão de que Joaquim Bentinho e meu tio Servino foram colegas de infância.

<b>JOCELINO SOARES</b>
Artista plástico, membro da Academia Rio-pretense de Letras e Cultura

 

 

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