Diário da Região

16/02/2003 - 00h05min

Mutirão e Fome Zero

Neste final de semana, a cidade de Jales está sendo sacudida por mais uma campanha. Ontem, foi dia de corpo-a-corpo para a arrecadação nos supermercados. E hoje, em todas as paróquias, quem vai para a missa é convidado a levar junto um quilo de alimento não-perecível. Depois, ao longo do mês, os vicentinos são incumbidos de conferir de perto quem de fato está precisando desta ajuda da comunidade. É assim que em Jales emplacou o “mutirão contra a fome”, lançado pela CNBB. Todo mês, no terceiro domingo, um momento intenso de arrecadação. Depois, ao longo de todo o mês, a ação constante e persistente de acompanhamento, de incentivo, de discernimento, de “conferência” por parte dos vicentinos, na tentativa de fazer da carência dos necessitados e da solidariedade da comunidade um estímulo para a superação da miséria e da fome. Na esperança de que as pessoas ajudadas passem a se ajudar a si próprias, para um dia também ajudar os outros. Não é fácil sustentar este processo. O próprio nome cunhado para a campanha e o corpo-a-corpo indicam que é preciso ter garra e convicção, tanto para motivar as doações como para destiná-las adequadamente, respeitando as pessoas e comprometendo-as a se empenhar na sua auto-promoção. Mas é evidente que isto não basta. Os problemas sociais não se resolvem com campanhas, por melhor que sejam conduzidas.

Por isto, ao lançar o mutirão, a CNBB desencadeou um processo que tem o mérito de mostrar que é preciso “avançar para águas mais profundas” também na pastoral social, se queremos realizar a pesca abundante da fartura de todas as mesas, para ficar com a imagem do Evangelho. Isto vale também para o programa Fome Zero, lançado pelo governo. Não pode ficar naquilo que ele é. O programa traz a marca da urgência de ser superado, por melhores que sejam suas intenções e por mais cuidadosa que seja sua aplicação. Na urgência do combate à fome, há uma dupla coincidência entre CNBB e governo. A urgência ética do atendimento das necessidades básicas da população, de que a fome é a expressão mais contundente e inequívoca. Mas também a urgência política, de atuação em profundidade, incidindo no processo e transformando sua dinâmica. Podemos dizer que ambos, governo e CNBB, iniciam do mesmo “partidor”. Mas cada qual precisa trilhar sua pista, para vencer a corrida contra a miséria e a fome, que servem de ponto de inserção entre Estado e cidadania. Salta aos olhos que o governo precisa atuar nas causas. Lá é seu chão próprio. O programa Fome Zero se justifica na medida em que serve de sinalização clara do seu compromisso inarredável de arquitetar a administração pública a serviço das causas vitais do povo.

Estas causas não inadiáveis, e o governo precisa estar atento para não retardar seu atendimento, sob o risco de perder não só a credibilidade, mas a capacidade de reverter velhas distorções e tornar-se cativo do mesmo processo que produziu os problemas que hoje vivemos. E à Igreja, o que cabe fazer? “Pobres sempre tereis convosco”, advertiu Jesus. Sempre haverá pessoas incapazes de se assumir a si mesmas. Por isto, sempre será necessária a ação caritativa da comunidade. Mas isto não exime a Igreja de prestar outro serviço, mais difícil e mais urgente. Ela precisa promover a cidadania. Esta é a contribuição mais preciosa que a Igreja pode oferecer. A participação na vida eclesial precisa se transformar em escola de atuação política. O mutirão para a superação da miséria e da fome precisa despertar a Igreja para a urgência de uma pastoral política, que leve os cristãos a fortalecer o tecido político da cidadania. Só assim será possível o Estado contar com cidadãos conscientes de suas responsabilidades e organizados para assumi-las com competência. Assim poderemos passar do símbolo do mutirão e da Fome Zero para a realidade de um País onde todos tenham condições de viver com dignidade.

DOM DEMÉTRIO VALENTINI
Bispo da Diocese de Jales

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