X
X

Diário da Região

04/02/2015 - 01h17min

 

Memórias

 

ao memorialista Jocelino Soares No último domingo, anoitecia, tive um surto proustiano que também me levou à busca do tempo perdido. A chuva forte molhando a grama do jardim, o vento balançando os galhos de minha velha mangueira, a enxurrada invadindo a calçada, tudo precedendo a mais um longo apagão, que nos fez acender velas pelos vários cantos da casa enquanto eu, em silêncio, me deixava inundar pelo barulho da água descendo pelos beirais do telhado, me levaram à casa da infância, na minha, então, minúscula Macaubal. Mais intensamente ao final dos anos 40, algum tempo depois do fim da Segunda Guerra Mundial. Por quê? me perguntei sem decifrar o momento que me transladava para a rua de lama e os postes tortos que se enfileiravam na rua pobre, fantasmas noturnos que nos alimentavam de luz apenas das seis da tarde às 10 da noite. Memórias súbitas, no entanto, não cabem em explicações racionais. Nascem das profundezas de nossa memória afetiva , são memórias que saem do coração(re-cordis) e inundam nosso ser de longínquas vozes, murmúrios, sussurros, nos escuros corredores da antiga casa. Casa de meus pais libaneses, católicos, onde quase diariamente um velho muçulmano tomava respeitosamente suas refeições, onde dezenas de lavradores deixavam em nosso cofre o dinheiro resultante das colheitas, muitas vezes sem qualquer comprovante. Casa de meus pais, onde no fundo do quintal, mal desperta, a madrugada vinha encontrar meu avô rachando lenha para o fogaréu do café da manhã, ou cortando cachos de uva da velha parreira que chegava a debruçar alguns de seus tentáculos sobre a antiga moldura da janela da cozinha.


Eu não sabia, é claro, mas como Drummond, da janela de meu quarto eu tinha a vista do mundo, e nas noites insones o medo do vento que uivava nas persianas, eu me encolhia sob as cobertas à espera dos primeiros raios de sol que surgiam para o sossego de minha mente infantil. A chuva trouxe mesmo, um turbilhão de velhas lembranças que passavam lentas pelas ruas esburacadas, no trajeto para o humilde Grupo Escolar, onde aprendíamos a tabuada e nos lambuzávamos da tinta com que molhávamos a pena para os rabiscos infantis, que muitas vezes nos custavam algum castigo que, vendo-me hoje como pessoa, não deixou qualquer trauma. Nossa pobre infância era uma rica infância, tinha sonhos hollywoodianos, que por mais que nunca se realizassem, traziam o conforto da fantasia. Fantasia, me lembro, como a de um pobre aluno que no recreio comia seu pão fatiado, sem nada dentro dele, exceto a humilde fantasia de que comia pão com manteiga e mortadela. Tornou-se depois um grande executivo de uma grande empresa, hoje aposentado. A pequena Macaubal tinha uma característica toda sua, naqueles velhos tempos: ou era a fala caipira que se ouvia pelas ruas ou até mais intensamente o linguajar árabe em todas as esquinas, pois os sírio-libaneses (os turcos, como eram chamados), formavam uma plêiade de famílias , que foi uma da molas propulsoras do crescimento da cidade. De repente, no entanto, vendo a chuva cessar lentamente, deixando no ar um frescor que há muito não sentia, finda também o apagão. Permanece em mim, apenas a memória das conversas noturnas, ao pé de um lampião sobre um móvel da sala.


WILSON DAHERPsiquiatra e membro da Academia Rio-pretense de Letras e Cultura


>> Leia aqui o Diário da Região Digital

Aviso: Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não representam a opinião do Diário da Região. É vetada a inserção de comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros. O Diário da Região poderá retirar, sem prévia notificação, comentários postados que não respeitem os critérios impostos neste aviso ou que estejam fora do tema proposto.

Di´rio Im&ocute;veis

Di´rio Motors

Esqueci minha senha
Informe o e-mail utilizado por você para recuperar sua senha no Diário da Região.

Já sou assinante

Para continuar lendo esta matéria,
faça seu login de acesso:

É assinante mas ainda não possui senha? Clique Aqui!
É assinante mais quer redefinir sua senha? Clique Aqui!

Assine o Diário da Região Digital

Para continuar lendo, faça uma assinatura do Diário da Região e tenha acesso completo ao conteúdo.

Assine agora

Pacote Digital por apenas R$ 16,90 por mês.
OUTROS PACOTES


ou ligue para os telefones: (17) 2139 2010 / 2139 2020

Cadastro Grátis
Diário da Região
Clique no botão ao lado e agilize seu cadastro importando seus dados básicos do facebook
Sexo
Defina seus dados de acesso