Diário da Região

03/02/2008 - 00h43min

Medo de assombração

Penso que todas as crianças, como eu, adoravam ouvir histórias de assombração. Adoravam e morriam de medo ao mesmo tempo. Sair do local onde estávamos sentados para irmos para casa, no escuro, era pavoroso. Parecia que estávamos caminhando ao lado daqueles personagens recém-saídos dos causos. Mula-sem-cabeça, lobisomem, a mulher de branco, o homem do saco e ex-moradores do local que haviam morrido e os colonos juravam tê-los visto andando pela colônia arrastando correntes, ou tocando uma tropa que passava pelas porteiras sem abri-las. Os adultos, homens e mulheres sentados em círculos e cada qual trazendo sua cadeira, aproveitavam as noites de calor e, sob o clarão da lua cheia, contavam as mais horripilantes histórias de almas penadas. Nós crianças, morrendo de medo em ouvir tais causos, desejávamos ir embora, mas a curiosidade era maior e ficávamos como que colados ao chão, impossibilitados de mover um músculo que fosse para sair dali.

Contavam, além de almas de outro mundo, também histórias que juravam ter acontecido com eles próprios. Histórias essas de dar calafrios na espinha, já que contavam com muita convicção. Como, por exemplo, aquela na qual o marido percebeu que a esposa que dera à luz há mais de dois meses estava fraca e a criança não ?arribava?, ficando muito magrinha. Foi numa benzedeira e ela vaticinou: É cobra que vem à noite, das bem grandes, desce pelo telhado. Enquanto vocês dormem, ela mama em sua esposa e se a criança acordar, dá-lhe a ponta do rabo como se fosse chupeta. O marido ficou à espreita na noite seguinte. A madrugada ia alta, ele sonolento, sentado na soleira da porta, com a espingarda pica-pau sobre os joelhos. Ouve um barulho por entre as telhas e, para sua grande surpresa, vê surgir aos poucos a temível cobra com mais de quatro metros.

Ele não acredita no que está vendo, a cobra serpenteia por entre as telhas e desce pela parede em direção à esposa e ao bebê. Ele, num tiro certeiro, mata a cobra. Outro tema muito narrado era sobre cemitérios. Recordo da estória de dois caboclinhos indo em direção à cidade numa velha AeroWillys. Na subida, o veículo começa a afogar elevando o motor em alta temperatura. Aos trancos e barrancos se aproximam da cidadezinha. Só não queriam que ela parasse próximo ao cemitério, àquelas horas. Dito e feito. A perua parece que fez de propósito, parando exatamente em frente. No relógio da matriz doze badaladas denunciam ser meia-noite. Um olha pro outro e se arrepiam de medo. O motorista diz para o ajudante, sentindo que o mesmo é muito medroso, para que fique no veículo enquanto ele vai buscar ajuda de um mecânico. Àquela hora somente com muita sorte para se conseguir socorro. O ajudante morre de medo em ficar sozinho. Diz que sozinho não fica. Ainda mais sendo naquele local e horário. O motorista, não tendo alternativa, lhe diz então:
- Já que não quer ficar, pois que vá.
Pálido de medo e suando frio, olha para o cemitério à sua frente. Tudo escuro. Meia-noite. Agarra-se ao motorista e diz com voz de muito pavor:
- Eu num vô, e num ficu!

JOCELINO SOARES
Artista plástico e diretor da Casa de Cultura ?Dinorath do Valle?; Rio Preto

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