Diário da Região

17/07/2011 - 00h50min

 

Lembranças de 1966

 

Guimarães Rosa, dando voz a Riobaldo, disse “toda saudade é uma espécie de velhice”. O julho de 1966, com seu céu límpido e um teimoso friozinho, foi um período muito especial para o plantio das sementes que frutificaram na materialização de um projeto nascido na vontade de alguns idealistas. Passaram-se 45 anos, mas a lembrança leva-me de volta àqueles tempos em que o futuro estava longe e o presente era um permanente desafio. Rio Preto tinha apenas uma centena de médicos, gravitando em torno da Sociedade de Medicina e Cirurgia, uma das mais antigas do Estado de São Paulo, centro de difusão de conhecimentos, acordos políticos e efervescente cadinho de ideias avançadas. Uma das ideias que não nos abandonava era de que merecíamos uma Faculdade de Medicina, para consolidar definitivamente nossa cidade como núcleo médico de uma das maiores áreas geográficas do interior Paulista. As dificuldades pareciam intransponíveis, mas uma plêiade de médicos auxiliados por alguns amigos entusiastas do ensino tomaram o desafio como uma questão de honra.


Sinto saudade das reuniões que nos remetiam a conversar com autoridades, sempre reticentes naqueles tempos em permitir a criação de uma escola médica no interior do País. Lembro sem medo de errar deste pequeno grupo que, sem descanso, dedicou-se ao mister de provar que tínhamos competência e capacidade para implementar uma faculdade de alto nível. Sob a liderança serena e eficiente do dr. Raul de Aguiar Ribeiro, éramos soldados: Cleo Roma, Antoine Younes, Oscar Dória, José Arroio Martins, Neon de Mello Oliveira, eu e os professores Daud Jorge Simão e Adail Vetorazzo. Éramos poucos, mas tínhamos o apoio dos colegas e de toda a cidade. Mas o fato que me fez escrever esta crônica é que, em um dia deste mês de julho, há 45 anos, partimos para a incipiente Brasília, encravada no centro do País. Fomos no meu avião, um Cessna 172, com prefixo PP-BQH. O piloto era eu mesmo e acompanhavam-me os corajosos Oscar Dória, Daud Jorge Simão e Neon de Mello Oliveira. Saímos cedo, visitamos políticos e autoridades do MEC, com muitos argumentos que, infelizmente, não entoavam muito bem aos seus ouvidos. Colocaram mil dificuldades, que não nos intimidavam.


Pela tardezinha voltávamos cheios de dúvidas, mas sempre com esperanças e muita conversa. Quando passávamos sobre a cidade de Tupaciguara (ponto de apoio fundamental na rota de quase mil quilômetros), com a conversa fluindo animada sobre como iríamos solucionar as exigências, distraí-me e esqueci de mudar o registro do tanque de gasolina. Eis que, sem o combustível, o motor parou! O susto foi enorme, a conversa cessou imediatamente e todos pensavam no pior. Na realidade a situação não era tão grave: bastou que eu mudasse a válvula seletora para o outro tanque e fizesse o motor “pegar” novamente. Após o incidente tínhamos mais uns 100 minutos de voo, que decorreu em silêncio absoluto. Todos só pensavam em chegar vivos a Rio Preto, o que aconteceu sem qualquer contratempo. Ficou, contudo a marca do quase acidente, que gerou comentários por muito tempo, sempre que nos reuníamos para vencer as dificuldades que culminaram com a fundação da Famerp em 1968. Fica a lição: por mais que tentemos ser perfeitos, seja em qual atividade for, acidentes ou quase acidentes acontecem simplesmente porque somos imperfeitos.


DOMINGO BRAILEProfessor emérito da Famerp e Unicamp. Diretor da Pós-Graduação da Famerp. Editor da Revista Brasileira de Cirurgia Cardiovascular e membro da Academia Rio-pretense de Letras e Cultura.


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