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Diário da Região

16/04/2016 - 00h00min

Painel de Ideias

Laura e eles, no jardim da fantasia

Painel de Ideias

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Impressionavam os longos cabelos escuros e os lindos olhos faiscantes. Iguais aos da mãe. Tive uma única conversa com Laura. Queria saber de mim o que esperar da profissão. Ouviu com atenção, prospectando com inteligência, meu olhar e minhas razões. Disse a ela o mesmo que digo aos aspirantes. Receita básica, sedimento para a estrada do bom jornalista. Precisava ir pra rua, o gosto da reportagem, a muvuca das redações, experiência necessária para o depois, que viria com tudo o que ela quisesse, merecidamente, até o livro. Traçamos, rapidamente, um imaginário ideal para sua estreia e futuro. Ela adentrou com alegria ao jardim. Passeou por algumas breves, belas e desejadas fantasias. E a morte veio. E editou sua vida em apenas 20 anos.

Tenho caríssimos amigos e amigas que perderam filhos muito, muito, exagerada e maravilhosamente, jovens. Alguns - gerados no mesmo período das minhas duas gestações - cresceram junto com meus meninos, aqui e ali, nos caminhos de uma mesma cidade. Diante do meu olhar assustado, apavorado, esses pais e mães órfãos tornam-se para mim celebridades, semideuses, humanos sobrenaturais.

Quando encontro alguém desses, abraço apertado, desejo pular pra dentro da alma dele ou dela e puxar pra fora, mandar embora de vez, a dor maldita e entrecortada, sempre ali, pega em um sorriso tímido ou gesto distraído. Frente a frente desses gigantes da resistência as perguntas me vêm, renitentes. Como respiram? Como comem? Como sobrevivem? Como fazem com a saudade? Como suportam a dor? Como? Meu Deus, como?

Nesse momento penso que, talvez ou certamente, existam outros jardins da fantasia espalhados nos céus desses filhos que partem tão cedo. É lá que os pais sabem que eles estão. Em segurança e plenitude. É lá que os visitam. É lá que esses meninos e meninas seguem vivendo – sim vivendo – suas melhores e mais sonhadas fantasias. Eles simplesmente anoitecem aqui e amanhecem lá.

Quem conhece Paulinho Pedra Azul já ouviu Ave Cantadeira, do álbum Jardim da Fantasia, de um distante 1982. Quem não conhece, procure no Youtube. É uma das canções mais sentidamente poéticas da música popular brasileira. Paulinho canta um lamento que traduzo como o voo de quem tem filho ou filha vivendo no jardim da fantasia do lado de lá. Enquanto ainda estão por aqui, os pais e mães transformam-se em aves cantadeiras a entoar para seus rebentos. “E lá vou eu nessa estrada, desafiando o coração. Cantando em prosa ou canção, feito uma ave cantadeira. Cantar, viver, criar penas de pássaro no ar. Voar, sofrer, amar você. E lá vou eu nessa agonia, levando a dor em minhas mãos, fugindo igual a um bicho errante, amargurado coração. Cantar, sofrer, voar, sobreviver.”

Aos pais de Tamires, Adriano, Mateus, Igor, Laura. Essa crônica é para vocês.

 

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