Diário da Região

03/10/2010 - 00h15min

 

Fazenda São José

 

Recentemente, ao participar de um programa de televisão em nossa cidade, pude falar da minha vida e mostrar um pouco da minha arte. Falar das coisas doces vividas na infância de menino criado solto pelos campos. Ao ver as imagens de um fogão à lenha aceso, consegui sentir o cheiro do feijão sendo cozido. Confesso que fiquei muito emocionado. Falei da fazenda em que eu morei na minha infância e parte da minha adolescência: a Fazenda São José, situada entre Rio Preto e Borboleta, hoje Bady Bassitt. O perímetro urbano de Rio Preto avançou sobre suas terras, alguns condomínios e o bairro Moyses Haddad ocuparam parte da antiga fazenda de cafés, que teve o final do seu ciclo no início dos anos oitenta. Para acessar sua sede e a colônia, o visitante era conduzido por uma alameda de grandes eucaliptos, existentes até hoje, e imensos pomares de laranjas e jabuticabeiras que, com as primeiras chuvas da primavera, ficavam brancas de milhares de pequeninas flores de perfume irresistível, para os passantes e para as abelhas. Um bosque de pinheiros fazia a moldura da bela entrada.


A variedade de frutas era algo que sempre me chamou a atenção. Hoje, a lichia é uma fruta muito conhecida, mas há quarenta anos atrás ninguém sabia da sua existência. Nós moradores da fazenda já a saboreávamos sem saber o seu verdadeiro nome e origem. Os cajueiros ficavam lotados de frutas amarelas e vermelhas para o nosso deleite. Havia também pomares de caqui e de tangerina ponkan que, de tão carregados, seus galhos tombavam com o peso. Apanhar a fruta no pé era um grande prazer. Tínhamos verdadeira admiração pelos nossos patrões. Nas férias de julho e dezembro, os filhos vinham passar o período de recesso escolar misturados aos caboclinhos da colônia. Os turquinhos, como nós os chamávamos, não faziam discriminação com os seus funcionários, e nós todos cavalgávamos por horas esquecidos das nossas diferenças sociais.


A fazenda pertencia aos irmãos Haddad, mas os responsáveis diretos pela mesma era o Sr. Anísio e sua esposa Beny, aliás, é dela que eu quero falar a partir de agora. Havia em nós, colonos, um carinho muito grande pela dona Beny, mulher muito elegante, fina no tratamento para com os seus empregados, o que a tornava muito especial. Lembro-me de nós meninos caminhando pela rodovia, carregando o material escolar em um “imborná” pendurado nos ombros vindos da Escola Mista da Fazenda Borá. A escola funcionava dentro do Alarme. Quando nos avistava, ela não tinha dúvidas, parava seu Aero-Willys vermelho e branco, dando carona aos meninos e meninas de pés descalços que caminhavam suados embaixo de um sol escaldante e nos deixava em frente à casa do seu Antônio, o administrador da propriedade. A Sônia Regina, uma das meninas, trabalha com a dona Beny até os dias de hoje e lá se vão mais de quarenta anos!


A senhora Beny, em 1975, abriu a Casa Grande Galeria de Artes e os artistas eram hospedados na Fazenda São José. Eu, que estava dando os primeiros passos na arte, tive o privilégio de conhecer alguns dos artistas plásticos que se destacavam à época no cenário nacional e receber deles incentivos. Em meio aos colonos e meeiros de cafés, cresceram seus filhos: Gisela, Márcio, Cristiane e Juliane. Em janeiro de 1978, mais precisamente no dia de Santos Reis, para tristeza de toda a fazenda, morria Anísio Haddad. Nessa época eu já estava trabalhando em São Paulo, na Polícia Militar. Para mim, a notícia produziu profunda tristeza, foi como se tivesse perdido alguém da minha família. Hoje, a fazenda como era não existe mais. Seus colonos e meeiros estão espalhados pelos cantos do mundo, mas há uma certeza de que em cada coração, em cada pensamento de gratidão, estará sempre o nome de Beny Maria Verdi Haddad.

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