X
X

Diário da Região

15/01/2015 - 01h45min

 

Eu sou Charlie

 

Vídeo 1: O ginecologista examina uma paciente e grita:- Estou vendo meu Jesus Cristo em você, estou vendo!A assistente do médico enfia o rosto no meio das pernas da paciente e exalta:- Me beija, senhor, me beija.


Vídeo 2: José acaba de ser informado pelo anjo Gabriel que sua mulher Maria dará à luz, mas ele não é o pai.- Eu vou deixar esses dois aqui (Deus e Maria) sozinhos? Ele vai querer segundo tempo, vai dizer que quer gêmeos. Eu sou corno agora?


Vídeo 3: O dono de uma padaria se passa por padre/pastor e abençoa um frango assado.- Jesus Cristo, esse é o vosso corpo, é o vosso frango. Pelo mistério do sangue de Jesus, tomai esse frango que vós sois o corpo de Cristo.


Estes três vídeos são trechos de esquetes do Porta dos Fundos, grupo de humor bastante famoso na internet e que possui milhões de seguidores. As piadas ridicularizam o cristianismo de forma nada sutil. Há outros vídeos do Porta nesta mesma linha. E o que deveria acontecer aos humoristas? Censura? Chibatadas? Morte pelas mãos de cristãos encapuzados? Nenhuma dessas opções, em nome da liberdade de expressão. Tenho me irritado com a abundância de textos, especialmente na rede social, que tentam justificar o massacre ocorrido na França. Alguns chegam a defender os pobres terroristas. Quase todos começam com a mesma premissa: "Não sou a favor do terrorismo, do assassinato de jornalistas, mas...". E depois do "mas" escrevem um monte de lenga-lenga que, no fundo, tenta legitimar a tragédia ocorrida no Charlie Hebdo. O relativismo é de arrepiar. Causou-me espanto especialmente um artigo do jornalista Rafo Saldanha, publicado no blog do teólogo Leonardo Boff, em que ele solta pérolas para justificar por que não defende o Charlie Hebdo. O melhor trecho: "Uma das defesas comuns ao estilo do Charlie Hebdo é dizer que eles também criticavam católicos e judeus. Se as outras religiões não reagiram à ofensa, isso é um problema delas. Ninguém é obrigado a ser ofendido calado." Uma defesa clara e inequívoca do sanguinário ataque à revista francesa. Aqui vale voltar um pouco no tempo e lembrar da proibição no Brasil do filme Je vous salue Marie, do cineasta francês Jean Luc-Godard. A obra foi considerada blasfema pelo papa João Paulo II na década de 80 e não pôde ser exibida nos cinemas brasileiros - a proibição partiu do ex-presidente José Sarney. Dou meu braço direito se essa mesma patota que defende a censura ao Charlie Hebdo também se empenhou para impedir a exibição de um filme que ridicularizava, para os católicos, a imagem de Maria e José e o dogma da imaculada conceição. Que nada. Na época, a igreja foi vista como inimiga das liberdades individuais. Opressora. Inquisidora.


Existe sim, no caso do Charlie Hebdo, um pano de fundo que envolve problemas de imigração, de colonialismo, extrema direita europeia e o diabo a quatro. Claro que os conflitos estão lá. Mas utilizar isso como argumento para os atentados é relativizar o assunto, é relativizar a vida. Ou se defende a liberdade de expressão de maneira integral, ou que sejam impostas barreiras quando se trata de criticar qualquer religião. Veja bem, qualquer religião, e não só o Islamismo. Eu abraço a primeira opção. Até porque a segunda é um retorno à idade das trevas. A liberdade de expressão deve estar acima do dogma de qualquer religião. Ninguém é obrigado a se matar de rir com os vídeos do Porta dos Fundos - de longe muito mais ofensivos aos cristãos que as charges do Charlie Hebdo aos muçulmanos. Costumo gostar das esquetes do Porta, mas algumas considero particularmente desrespeitosas e desnecessárias. Apelação mesmo. Mas e daí? É só não assistir. Ou boicotar. Ou dizer aos amigos que não presta. Vale tudo isso. Só não vale entrar no estúdio e sair atirando contra os humoristas. Je suis Godard. Je suis Porta dos Fundos. Je suis Charlie.


FABRÍCIO CARARETOEditor-chefe do Diário



>> Leia aqui o Diário da Região Digital

Aviso: Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não representam a opinião do Diário da Região. É vetada a inserção de comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros. O Diário da Região poderá retirar, sem prévia notificação, comentários postados que não respeitem os critérios impostos neste aviso ou que estejam fora do tema proposto.

Di´rio Im&ocute;veis

Di´rio Motors

Esqueci minha senha
Informe o e-mail utilizado por você para recuperar sua senha no Diário da Região.

Já sou assinante

Para continuar lendo esta matéria,
faça seu login de acesso:

É assinante mas ainda não possui senha? Clique Aqui!
É assinante mais quer redefinir sua senha? Clique Aqui!

Assine o Diário da Região Digital

Para continuar lendo, faça uma assinatura do Diário da Região e tenha acesso completo ao conteúdo.

Assine agora

Pacote Digital por apenas R$ 16,90 por mês.
OUTROS PACOTES


ou ligue para os telefones: (17) 2139 2010 / 2139 2020

Cadastro Grátis
Diário da Região
Clique no botão ao lado e agilize seu cadastro importando seus dados básicos do facebook
Sexo
Defina seus dados de acesso