Diário da Região

11/02/2010 - 01h02min

 

Desmentido oficial

 

Não, não tem fundamento o que se diz dos médicos brasileiros. Não, não são obrigados a fazer pós-graduação em Ortofobia e Califobia, a ciência oculta incompreendida por leigos e criada para transformar palavras em rabiscos. A pós-graduação é desnecessária, pois o aprendizado se faz naturalmente por seis anos de prática desleixada. Alguns requisitos são desejados, como o conhecimento prévio de abreviaturas, mão solta, espírito relaxado e intimidade com o Todo-Poderoso, pois no dia seguinte somente ele, na sua infinita misericórdia, conseguirá ler o escrito. Também não procede que Neuza de Jesus chefe da enfermagem do Pronto-Socorro do Hospital das clinicas (SP), o maior da América Latina, vá receber - em nome das enfermeiras-mártires do planeta - o Prêmio Nobel da Paciência por decifrar 217 receitas médicas numa noite de sábado na pacífica e ordeira capital paulista. Tenho bons amigos médicos com letras escandalosamente bêbadas que comprovam a aprendizado referido. Morei com alguns em repúblicas de estudantes. O rio-pretense e professor da Faculdade de Londrina, José Luiz Baldy, quando estudante tinha letra de moça; o exercício da medicina ou a influência dos médicos devastaram sua caligrafia - se me permitem o paradoxo. Meu ex-parceiro de sofá-cama, Francisco Simão Homsi, (pois é, dividimos um enorme sofá-cama numa república, nos tempos de dureza estudantil). Homsi, eu dizia, era pessoa correta de letra e caráter. O caráter continua, mas a letra.


Também tive a ilusão de que uma médica-mulher tivesse letras redondinhas. Vã ilusão. Apesar da superioridade crescente das mulheres sobre os homens, o pouco caso é igual. Principalmente se são bonitas e querem reafirmar fidelidade aos maridos; além da caligrafia manca, têm sempre a cara de comigo-não-violão-que-eu-sou-casada, tão comum nas cidades do interior. Aproveito para desmentir definitivamente que os médicos nada têm com os hieróglifos das pirâmides egípcias. Todos sabem que o linguista francês Champollion interpretou e desvendou as garatujas inscritas nos túmulos dos faraós; isso é verdade histórica. Mas não posso pactuar com a versão de que os médicos brasileiros fazem curso por correspondência de redação hieroglífica com os bisnetos dos tataranetos de Champollion. Até agora está comprovado apenas que nossos doutores treinam copiando os cadernos do falecido médium Chico Xavier, que tampava os olhos e danava a escrever feito um... feito um... médico. Na velhíssima China, a caligrafia distinguia-se como disciplina espiritual praticada somente pelos letrados, claro. Vi na enciclopédia que o calígrafo mais famoso foi MiFu, nome eloquente que mostra o que aconteceu com sua espiritualidade aqui na medicina tropical. Imagino o tamanho das confusões se um médico trabalhasse num cartório. Hipócrates, o grego pai da medicina, já tinha letra de médico ou isso é uma conquista da modernidade? Alguns se justificam dizendo que escrevem muito. Mas falam mais do que escrevem, então deveriam falar também por rabiscos? Quem escreve sem parar são as professoras do fundamental, os jornalistas, os cartórios, os funcionários de estacionamentos. Um amigo carioca tem a solução: se você e o farmacêutico não conseguiram transcodificar a receita, ligue para a casa do médico. De madrugada, quando eles podem ser encontrados.


ODÉCIO LOPES DOS SANTOSAdministrador de empresas

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