Diário da Região

18/04/2008 - 01h06min

Ajudamos na morte de Isabella?

O caso Isabella Nardoni virou um seriado, ou uma novela, ou então um livro policial de Agatha Christie. Uma trama em desmanche, um surrealismo da própria vida ou então, como queiram, mais um sinal de como estamos nos cuidando (ou deixando de nos cuidar), como seres - ditos - humanos. O acontecimento vai muito além das atmosferas policial e jurídica. Esbarra na observação comportamental em ângulos de explícita intriga em nossas mentes. As pessoas envolvidas e os personagens criados revelam um jogo teatral, direta ou indiretamente, constituído de espanto social. Vieram à tona pelo bombardeio da imprensa, um casal jovem de classe média e a mãe biológica de Isabella. Um triângulo composto de interrogações, estranhezas, incógnitas. No epicentro disso, a menina, símbolo de pureza que nos encanta, válvula-de-escape da falta de lisura diametral nas relações interpessoais dos adultos. É fato que, pela ótica da imprensa, Alexandre Nardoni mostra-nos impassível, de uma crueza segura, olhar vazio, distante. A madrasta, idem. É um casal sinérgico, muito próximo em reações. As semelhanças assustam. Se são realmente os responsáveis pelo assassinato, onde estão sentimentos de remorso, arrependimento, de lamento? O corpo, mais dia, menos dia, diz isso. Não no caso deles. Muitas vezes, não se vê traços naturalmente humanos em ambos. Frieza e calculismo combinam. É a antítese do sentimento puro. Está explícito.

Na outra ponta, a mãe. É de se notar um isolamento providencial, uma quietude letárgica, diante do inquérito policial. Um equilíbrio que nos assusta, apesar de válido para um momento de forte duelo entre emocional e racional. Há, certamente, todo um histórico passional nas barras do assassinato. Duas mulheres, uma atual e outra ex e um pai, marido. Em alguns exemplos os filhos viram um açoite da falta de sabedoria de quem os cria. Hoje, mães abandonam recém-nascidos, pais abusam sexualmente, casais brigam com os filhos no meio, a família vê-se destroçando em práticas individualistas que não se justificam do lado avesso. E deu no que deu. É um sinal de alerta social. A violência hoje é muito mais um problema de saúde mental ausente do que de segurança. A agressividade desponta como uma defesa, irascível, transferente, projetiva. O casal Nardoni é estranho aos nossos olhos. Conviveremos com outros. Observe mais as pessoas. Sigmund Freud afirmava sobre a condição perversa do ser humano e que apenas não se manifesta sempre por causa dos mecanismos de defesa do ego (repressão, projeção, racionalização, entre outras). Somos maus, antes de sermos bons. "Assassinamos" inconscientemente algumas pessoas. Se não o fazemos no ato, fazemos no íntimo. Há dificuldades de ajustamento no mesmo espaço entre dois ou mais indivíduos. O psicanalista paulistano Flávio Gikovate crê na maldade como um sinal claro de "fraqueza de ego". Pessoas frustradas tendem a eliminar algo da frente. O que nos impressiona às razões deste assassinato é uma estupidez sem fundamentos. E competimos com nossa própria mente na forma de elucidar o caso. Por que uma menina de 5 anos vira objeto de fúria transferencial e termina sua história de vida como terminou, asfixiada e jogada do alto como se fosse um brinquedo de pelúcia? O sentido da agressividade vem de cima para baixo. Do mais forte para o mais fraco. Queremos eliminar o puro, o belo, o inocente que nos incomoda. E instaurar a epopéia do individualismo cabal. É a guerra que o ser humano se propôs a criar, para seu esgotamento e provável desaparecimento. Pense.

MARCUS VINÍCIUS GABRIEL
Publicitário e estudante de psicologia em Rio Preto

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