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Diário da Região

23/01/2016 - 00h00min

Painel de Ideias

Adultos descalços

Painel de Ideias

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Eu tinha perto de oito anos quando a TV estreou em casa. A primeira audiência foi dos adultos. A princípio, não liguei meu olhar naquela geringonça acionada somente à noite.

Meu melhor programa acontecia fora da sala, com a molecada que aparecia todos finais de tarde para brincar na rua. Depois de muita bola queimada e pique-esconde, morta de cansada, suada e pés pretos de chão, passava pela TV sem nem dar conhecimento. Direto para o banheiro, dava uma enganada na limpeza dos pés para mãe não ralhar e, cama.

Brincar descalço era tão natural quanto os pés encardidos que a gente costumava ter. Pois bem, foi nesse pano de fundo que aconteceu a cena que guardo no meu relicário infantil. Certa noite, voltando da rua, ao passar pela sala, vi adultos desligarem rapidamente a TV. Lembro-me de alguém dizer: “-apaga que tem gente descalça aqui!” - Como assim, alguém descalça aqui se todas as noites eu estava naquela condição, qual o problema? Não entendi a deixa, mas tratei logo de caprichar na lavagem dos pezinhos para evitar a bronca que ficou vazia.

Depois daquilo, ouvi ainda muitas vezes a expressão “gente descalça” ao me aproximar de adultos conversando com ares de “calçados”. Escolhi esse assunto porque semana que passou foi comemorado o Dia do Adulto. Além da bizarrice da data (15 de janeiro), sem noção também são os adultos que seguem descalços pela vida. Morrem de pés sujos, fracassam na obra contínua e necessária que é a nossa construção como seres humanos.

Simone de Beauvoir disse que um adulto é uma criança de idade. Sim, há “crianças de idade” em grande confusão, misturando estações e vivendo à deriva. Faltam-lhes a elegância do amor, a maturidade dos sentimentos, a alegria da lealdade e a investidura na inteireza. Atravessam a vida em travessuras típicas de quem não se calçou para o mundo e para o próximo. Eis que nós, adultos descalços, seguimos com os pés socados na maldade, impregnados de mesquinharias, encardidos de inveja, calejados em pirraças, alquebrados e espinhados nas inverdades do coração, esse senhor enganoso que, tanto mais velho, mais astuto se apresenta.

Enfim, não se partilha com quem ainda não sacou a sutileza de uma ‘Bola de meia, Bola de gude’, eternizada por Milton Nascimento... "Há um menino,/ há um moleque/ morando sempre no meu coração,/ toda vez que o adulto balança ele vem pra me dar a mão. /Há um passado no meu presente,/ um sol bem quente lá no meu quintal,/ toda vez que a bruxa me assombra o menino me dá a mão./ E me fala de coisas bonitas /que eu acredito que não deixarão de existir,, amizade, palavra, respeito, caráter, bondade, alegria e amor., Pois não posso, não devo,/ não quero viver/ como toda essa gente insiste em viver. E não posso aceitar sossegado/ qualquer sacanagem ser coisa normal..." Então é isso, feliz Dia do Adulto pra você!

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