Diário da Região

06/10/2007 - 01h00min

A picada da agulha

Refugou a caneca de vinho; depois nem cigarro quis - essas coisas, contava-nos o Nhonhô Chico - já não me dão prazer, não me fazem falta; apenas são necessidades que inventei. Pela mesma razão, consumimos certos produtos não propriamente porque precisamos deles, mas para ter o que os outros têm, para não ficar "diferente", para ter status, para atrair admiração e aprovação, para chamar atenção, para tentar curar nossa ânsia pela necessidade de ter que jamais será saciada. O homem moderno revive o Mito da Caverna e passa a acreditar mais na imagem que na realidade. As cores, os sons e o próprio ambiente parecem falar direto ao cérebro, "pulando" a etapa do enxergar, do refletir, do meditar. É a teoria da "picada da agulha": as informações sendo injetadas diretamente na mente; as pessoas, influenciadas pela mídia, sendo contaminadas, subliminarmente, pelos padrões de consumo apresentados nas novelas e filmes, sem se perguntar: "Eu preciso disso realmente?". A família, numa economia altamente produtiva, é vista como uma "unidade de consumo" onde as coisas são digeridas, queimadas, desgastadas, substituídas e descartadas a um ritmo intenso. Isto se deve à pouca durabilidade dos produtos, afinal todos eles contem o ingrediente da "obsolescência programada". Certamente, é uma epidemia difícil de ser enfrentada porque ao mesmo tempo em que o consumismo vicia como as drogas, ele não é atacado como se dá com o uso e o tráfico de drogas. Pelo contrário, ele é realçado como uma atitude "do bem", é glamurisado. Todos louvamos os festivais de consumo em que se transformaram as festas. Como então nos defendermos desse vício se todos estão interessados na permanência e ampliação dele?

Reflita um pouco! Não compramos produtos; compramos sim a realização de nossos desejos mais profundos, associados aos produtos. Compramos a felicidade da família reunida (desejo profundo das mães) nas margarinas. (Do que são feitas e quais os perigos para a saúde? Não interessa!). Compramos a juventude e a alegria das amizades (desejo profundo dos jovens) numa roupa, num tênis, numa tatuagem. (De onde vem a matéria-prima para a sua confecção? Não interessa! Os corantes que as tingem são naturais ou artificiais? Não interessa! Como vivem os operários que os produzem? Não interessa!). Compramos a sensualidade e o poder da sedução (desejo dos homens e mulheres) numa cerveja. (Mas do que são feitas e se tornam-nos mais sedutores e atraentes de verdade? Isso não interessa!). Compramos o aconchego da proximidade num aparelho celular. (Mas suas ondas eletromagnéticas são cancerígenas-, como afirmou o Colégio de Médicos de Viena? Ah, isso não interessa!). E, assim, somos levados a consumir numa velocidade alucinante, como alucinante é a produção de lixo. E diante disto no mínimo separamos o lixo reciclável na cozinha. Colocando-o "fora", lavamos as mãos como Pilatos: "Este problema não me pertence mais". Mas ao depositar o lixo na rua não estamos jogando-o "fora". Estamos jogando-o "dentro" do ecossistema. Início de outra trajetória. E isso nos diz respeito. Diante de tanta veneração compulsiva no altar do consumo, a ecologia vem propondo mudanças para salvar a humanidade, já que a natureza está pouco se "lixando" pelo nosso bem-estar. Basta um "Tsunami", um "Katrina" e oxalá algo mais radical como fez aos dinossauros e aí: "Hasta la vista, hombres".

SILVIO JOSÉ FERREIRA DE SOUZA
Professor do Ibilce/Unesp, Rio Preto

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