Diário da Região

11/07/2006 - 01h15min

A matéria dos sonhos

"Somos feitos da mesma matéria que os sonhos. E a nossa vida pequena é cercada pelo sono". (Shakespeare)

Em minha casa suburbana haviam três quadros: um "Coração de Jesus", uma foto de minha avó italiana com meu tio e uma pequena placa trazida pelo meu pai com uma mensagem que eu , menino, lia a toda hora: "faça da vida um sonho e do sonho uma realidade". Li tanto que acabei por acreditar que aquela era uma ordem paterna e passei a lutar pelos meus sonhos. Até pensava que cumpria esse objetivo até cruzar no meu caminho José Celso Martinez Correia, o "louco de Deus" que carrega o Teatro Oficina em sua alma. Levei perto de 20 anos para começar a entender a complexidade desse criador. Século XX - corria o ano de 1983. Morávamos, jovens produtores de vídeo, em uma "república" que era também a sede da empresa. Na sala da casa circulava todo tipo de manifestação cultural. Entre esses artistas sempre aparecia por lá o José Celso. Falava muito e com muita paixão. Não sei se o entendíamos, mas o respeitávamos, víamos como participante de um passado glorioso e que passava por um momento de decadência, física inclusive. Seus discursos apaixonados nos deixavam calados, perplexos e admirados diante da história viva diante de nós. Uma manhã de domingo toca o telefone, era o Zé Celso. Estava muito excitado, era premente a nossa presença no Teatro Oficina, o grande momento chegara. Meio a contragosto, fomos até lá um colega e eu com o equipamento de vídeo que ele solicitava para gravar o misterioso evento.

Era um tanto deprimente o estado do prédio, todo desmantelado, chão de terra em alguns trechos, paredes todas rabiscadas. Entramos. Lá estava ele e um grupo de artistas, a maioria jovens, a dançar em círculos numa espécie de ritual. Segundo ele, a conjunção astral acontecia naquele momento, era o início de uma nova era e apontava para um buraco que acabara de ser feito em uma das paredes do Oficina e que despontava para o estacionamento do Grupo Silvio Santos. Anunciava ali a expansão do Teatro para o terreno do então poderoso rival que insistia em construir um prédio no local. Aquele ritual parecia o fruto de uma mente ensandecida, tamanha a disparidade das forças ali postas em jogo. Voltamos meu amigo e eu para casa gozar nosso domingo. Não comentamos nada. Quando alguém perguntava o que lá fomos fazer, falávamos: "aquelas coisas do Zé". Todos entendiam. Anos mais tarde, vi a cena gravada naquele dia no filme "O rei da Vela" dirigido pelo teatrólogo. Recentemente o ritual da abertura do buraco esteve representado na peça "Os Sertões", exibida no FIT em 2004. O Teatro Oficina hoje é um belo espaço projetado por Lina Bo Bardi e para a sua ampliação finalmente o sr. Abravanel baixou a resistência e fez um acordo com o José Celso. No estacionamento vai construir um Shopping com características culturais e, na continuação do buraco aberto em 83, haverá um teatro de arena e um outro convencional com mil lugares. Foram mais de vinte anos de sonho para se chegar a essa realidade.

AGILSON DE ARAUJO
Diretor de marketing, documentarista, arquiteto.

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