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Diário da Região

16/12/2016 - 00h00min

Artigo

À saúde, leitos de UTI

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As notícias chegam de todo o Brasil: faltam leitos de UTI! Uma exclamação, mas que ficaria melhor com um ponto de interrogação.

Cobrar aos governantes o cumprimento da Constituição Federal, que assegura o direito universal à saúde, investindo na criação de novos leitos, parece, obviamente, o caminho a ser trilhado.

O Ministério da Saúde considera que, para uma assistência adequada, devam existir entre 10 a 30 leitos de UTI para 100 mil pessoas. Os dados mais recentes do Conselho Federal de Medicina mostram o Brasil com 17,6 (no SUS são 9,9 leitos e no privado 41,4). Nos últimos 5 anos o país aumentou em 22,5% a quantidade de leitos. Então, por que pacientes ficam à espera de vaga?

O investimento para um novo leito de UTI é de cerca de 400 mil reais. Depois, é preciso dispor de um valor médio de 3.600 reais por dia por leito ocupado, dos quais 85% são custos fixos, que são despendidos mesmo com a UTI vazia, sendo que os recursos humanos consomem 70% do custo total.

Dados recém-apresentados no Congresso Panamericano e Ibérico de Medicina Intensiva, em Porto Alegre, estimam que cada paciente que sobrevive com o tratamento na UTI custa cerca de 45 mil reais. Nada demais para salvar uma vida. Mas, ao analisar a relação desse custo com o PIB per capita nacional, teremos uma relação de 1,1, maior que nos EUA - onde essa relação é 0,88 -, que Inglaterra (0,70) e Alemanha (0,42). Estamos gastando um dinheiro que não temos. Se há no país um bom número de leitos, por que continuamos lendo más notícias? E por que custa tão caro?

Dentro de um complexo conjunto de fatores, há dois índices básicos que precisam melhorar: aumentar a Taxa de Ocupação dos leitos e reduzir o Tempo Médio de Permanência (TMP), aumentando o número de pacientes atendidos por leito. As respostas podem ser encontradas dentro da UTI, mas também estão fora dela.

Há práticas comuns, que elevam o TMP e reduzem a ocupação, que estão relacionadas a fatores culturais da sociedade e da prática médica. Internam-se pacientes que não necessitam de cuidados intensivos e pacientes terminais que não se beneficiarão desses cuidados, motivados por critérios mais emocionais do que técnicos. Com muita ênfase, podemos afirmar que a gestão clínica precisa da integração de uma linha de cuidados de pacientes críticos, que inicia nas unidades de emergência, passa pela UTI e se conclui na enfermaria.

Não internar pacientes desnecessariamente é factível com o uso de critérios clínicos já bem estabelecidos, mas que devem ser reforçados por uma política de gestão institucional. Aumentar o número de pacientes atendidos por leito requer mudanças na atitude médica, com abolição da distanásia e respeito aos conceitos da terminalidade da vida e humanização da morte, vista como o ápice da linha da vida. Este caminho passa pelo treinamento técnico e de habilidades não técnicas, como empatia, relacionamento e multidisciplinaridade. Este é um debate em que a sociedade deve ser inserida com prioridade para que as decisões corretas e efetivas sejam tomadas e aplicadas.

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