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Pensar positivo e ficar perto da família: o conselho de especialistas

É importante mentalizar o positivo, ficar perto da família e gerar energia para superar as adversidades neste período da pandemia do coronavírus


    • São José do Rio Preto
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As pessoas têm vários motivos para entrar em pânico pela pandemia do coronavírus: os riscos de contágio e morte de entes queridos e pelas preocupações econômicas e inseguranças sobre o futuro. Neste cenário, é possível não se abalar emocionalmente? Como não desenvolver a depressão, que já afeta cerca de 300 milhões de pessoas em todo o mundo?

O Brasil é o país da América Latina com maior índice de casos de depressão e é considerado o país mais ansioso do mundo. A previsão da Organização Mundial da Saúde era que, até este ano, a doença seria a mais incapacitante do planeta. Sendo assim, o que fazer para cuidar da mente?

A psicóloga cognitivo-comportamental Mara Lúcia Madureira afirma que a pandemia do coronavírus está afetando negativamente o estado emocional das pessoas. No entanto, entrar em pânico, além de não ajudar em nada, só agrava a situação. "O atual cenário não é nada animador, mas não precisamos reagir de modo irracional. Não é a pandemia e as questões sócio-econômicas que causam pânico, mas o modo como as pessoas interpretam e reagem às circunstâncias."

A previsão de catástrofes provoca medo, angústia, insônia e outros sintomas de estresse. Mara afirma que é preciso reconhecer que se está antecipando tragédias, sofrendo hoje dramas e consequências desconhecidas, projeções que podem ou não ocorrer conforme nossas expectativas. "É fundamental permanecer no presente. Cuidar da própria vida e da vida dos outros, antes de vislumbrar um futuro sombrio. Manter a atenção e o pensamento no agora", explica Mara Lúcia.

É essencial filtrar bem as informações que recebemos, por meio das redes sociais, descartando áudios, textos e vídeos que não sejam de fontes confiáveis. Mara Lúcia afirma que, antes de tudo, é preciso aprender a discernir sobre o que é confiável e o que é desinformação. "Na dúvida, rejeite tudo o que chega por redes sociais e atente-se apenas para veículos de comunicação séria, matérias elaboradas por jornalistas profissionais. Siga as orientações das autoridades competentes, ministro da saúde, Luiz Henrique Mandetta, e Organização Mundial da Saúde (OMS)."

Mara Lúcia afirma que, se as pessoas não se cuidarem hoje, teremos muito mais mortes pela Covid-19 e muitas pessoas adoecidas emocionalmente. "A situação atual é inusitada. Não temos defesas biológicas, parâmetros de comparação ou ferramentas estratégicas para questões econômicas neste caso. Os recursos estão sendo construídos e utilizados de acordo com o curso dos eventos. Antecipar catástrofes é pior do que inútil."

Mistura de sentimentos

A psicóloga Kátia Ricardi de Abreu, especialista em analista transacional, afirma que o isolamento social pode abalar pessoas que não desenvolveram o hábito de desfrutar de sua própria companhia e não conseguem estruturar o tempo com atividades que não envolvam a presença de outras pessoas. "Para elas, a solidão é dolorosa, mesmo que passageira. No caso de pessoas idosas, a insegurança que já ocorre devido à fragilidade da idade avançada, soma-se ao sentimento de desproteção sem a presença de um ente querido ou de uma pessoa que lhes dê a confiança de estarem amparadas em suas necessidades básicas."

Cuidar da parte emocional neste momento, é fundamental, pois as emoções interferem no nosso sistema imunológico. "Os cuidados preventivos portanto, vão além da assepsia. Não basta passar álcool gel nas mãos e deixar a alma perturbada, confusa e temerosa", alerta Kátia.

O fortalecimento emocional e espiritual colaboram também neste processo, segundo a psicóloga Kátia. "Meditação e oração são fundamentais para conviver com esta realidade, dentro de uma possibilidade maior de equilíbrio. A fé e a esperança aliadas aos cuidados físicos, estrutura emocional e maturidade espiritual, são elementos que poderão transformar as pessoas, tornando-as mais conscientes da fragilidade e ao mesmo tempo, da força que habita em cada ser humano. E assim, a evolução poderá acontecer dentro de cada um de nós."

 

Freepik/Divulgação

Aliviar a mente e não se permitir entrar em pane é essencial. Confira abaixo como fazer

  • É preciso ser o sujeito e o observador das próprias emoções. Reconhecer e quantificar os sentimentos, identificar os pensamentos geradores destes sentimentos e oferecer a si mesmo, uma explicação racional. Por exemplo:
  • Sentimento (o que estou sentindo?): ansiedade, medo, angústia.
  • Intensidade: (Quão intenso é o sentimento neste momento?) Dê uma nota de 0 a 10 para o sentimento. Por exemplo: Considere o pior medo que você sentiu na vida como sendo nota 10. Compare a ansiedade atual à sua pior experiência (a de nota 10) e dê-lhe um valor de 0 a 10.
  • Identifique o pensamento ou imagem mental que está provocando o medo ou ansiedade. Pergunte-se: O que está passando pela minha cabeça? Responda-se. Por exemplo: Iremos passar fome. Não conseguirei cuidar da família. Meu negócio irá quebrar, etc.
  • Procure evidências que apoiem ou enfraqueçam sua tese catastrófica: Quais as evidências de que sustentam esses pensamentos? Responda-se: por exemplo: não estou trabalhando. Posso ser demitido. Não terei dinheiro para pagar as contas. Analise como você se sente (o quanto sua ansiedade ou medo se eleva) quando pensa desse modo.
  • Procure evidências que enfraqueçam sua tese catastrófica: Por exemplo: Há iniciativas do governo para ajudar pessoas e empresas em situações críticas. Não morremos de fome, o mercado está abastecido. Nunca passamos por isso, não sabemos como será o depois, portanto, não adianta tentar prever nada. Do mesmo jeito que eu montei esse negócio, posso inová-lo, inventar outro. Aja no presente. Avalie quão ansioso você se sente ao pensar racionalmente.

Fonte: Mara Lúcia Madureira, psicóloga cognitivo-comportamental

As pessoas que estão reclusas em casa por conta das medidas preventivas, não devem entrar em pânico, segundo a psicóloga Karina Younan, mestre em ciências da saúde. "Nós não temos razões concretas para isso e não deveríamos projetar um cenário caótico, quando as medidas de isolamento têm funcionado tão bem. Depende de nós, e do respeito às medidas de contenção, evitarmos a pandemia com número aumentado de mortes. Então, vamos fazê-las."

Para a especialista, as pessoas estão presas em casa e com a mente do lado de fora. "Muitas pessoas continuam resolvendo problemas que não tem como serem resolvidos pela própria situação de isolamento. Esse 'como será, salário de empregados, aluguel, despesas fixas e a sensação de não estar produzindo também não nos deixa descansar. Daí existe uma sobrecarga mental, ansiedade extrema."

Neste cenário, Karina Younan afirma que é preciso colocar a mente em ordem. "A situação é grave e estamos todos no mesmo barco. Se o desespero atrapalhar o isolamento, tudo pode ficar ainda pior. Então, por determinação, não vou pensar agora nos problemas práticos do depois, pois precisamos que o isolamento funcione e seja mais breve do que arriscarmos a não fazê-lo, estendendo e piorando a quarentena."

Com esse 'não pensar por enquanto', segundo a psicóloga, estamos salvando valiosas vidas humanas. "Esse seria o primeiro e o mais importante passo. Determinar-se a se acalmar internamente, controlando e afastando seus próprios pensamentos, pois eles só podem trazer mais angústia para este momento já muito difícil."

Dicas

A psicóloga Karina, afirma que é preciso trabalhar o que for possível, dentro do possível. Estudar possibilidades, conversar com outras pessoas de sua mesma categoria, buscar soluções econômicas, fazendo também uma boa organização para uma contenção de gastos. "Esse é o momento de focarmos no essencial, sabendo que todos teremos ajustes. Decidir quais contas pagar e quais prejuízos podem ser amenizados, sabendo que estamos todos buscando por soluções."

É preciso não dar demasiada importância para as perdas financeiras, se ela não envolve a sobrevivência de sua família. "Parece clichê, mas com saúde tudo o que é material pode ser recuperado."

Para a especialista, é indicado ainda criar uma rotina que mantenha a pessoa ativa e envolvida. "Exercitar-se mesmo recluso, manter uma dieta equilibrada e atenta. Cozinhar, limpar, exercitar-se e buscar conteúdos que servirão ao trabalho e ao seu desenvolvimento pessoal. Cursos, estudo, literatura, filmes, o contato virtual e o debate. Aproveitar o momento com a família e estreitar laços, reforçar o amor aos que estão isolados ou distantes. Se existir calma, podemos aprender e tirar proveito desse tempo parado", afirma Karina.