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TRATAMENTO

Hospitais de Rio Preto usam cloroquina em pacientes

Ao menos seis internados em Rio Preto já tomaram o medicamento, que ainda está em fase de testes


    • São José do Rio Preto
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Seis pacientes graves internados por coronavírus em Rio Preto foram medicados com cloroquina ou hidroxicloroquina. O remédio antimalárico (para tratamento de malária) de ação anti-inflamatória está sendo usado no tratamento da Covid-19 por hospitais do município desde o dia 27 de março, quando o Ministério da Saúde autorizou a substância. Mas, sem resultados conclusivos sobre o uso contra a Covid-19, a recomendação médica no momento é manter o isolamento social como o melhor remédio para barrar a propagação da doença e evitar mortes.

A cloroquina é o primeiro remédio contra malária. O fármaco também é usado contra lúpus eritematoso sistêmico, artrites e síndrome de sjogren. O uso da cloroquina para Covid-19 foi indicado por pesquisadores internacionais e autorizado pelo Ministério da Saúde. Inicialmente, o protocolo previa o uso em pacientes internados em estado grave; agora, a utilização foi liberada a pacientes em estado moderado. "Já liberamos cloroquina e hidroxicloroquina tanto para os pacientes críticos, aqueles que ficam em CTIs, quanto para qualquer paciente em hospital, o moderado. O medicamento já é entregue, já tem protocolo. Nós estamos analisando para casos anteriores aos leves, que é onde pode haver algum tipo de senão. Isso ainda existe um pouco de dúvida, por conta de efeitos colaterais", disse o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, na coletiva de imprensa desta terça-feira, 7.

Embora haja estudos de laboratórios que mostrem sua eficácia contra o coronavírus, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) afirma que é preciso ter evidências clínicas sobre a segurança e eficácia do tratamento. Na Amazônia, a Fundação testou o remédio em 81 pacientes. Durante as duas semanas de testes, 13% dos pacientes morreram - em estudos mundiais o percentual tem ficado entre 18% e 20%.

O Hospital de Base, responsável por atender pacientes de Rio Preto e de outras 101 cidades da região, foi o que mais usou a medicação até esta terça-feira, 7. Cinco pacientes internados em unidades de terapia intensiva (UTI) já receberam a medicação com dosagens de 200 miligramas (mg), aplicadas duas vezes ao dia.

Pela nota do Ministério da Saúde, a cloroquina deve ser usada em pacientes internados. O protocolo prevê cinco dias de tratamento. "As equipes intensivistas do HB estão usando apenas em pacientes graves e sob ventilação mecânica, avaliando rigorosamente os fatores de riscos para eventos adversos, como arritmia cardíaca, antes e durante o uso da medicação", afirmou a chefe do serviço de medicina intensiva do HB, Suzana Lobo.

Segundo a médica, em pouco mais de duas semanas de uso, não há sinais de que o remédio tenha ajudado. "Por enquanto, as equipes médicas não constataram nenhuma melhora no quadro clínico dos pacientes em que foi feito uso da hidroxicloroquina", disse.

No caso do empresário Milton Miyashiro, 49 anos, internado e entubado por Covid-19 desde o dia 2, a hidroxicloroquina precisou ser suspensa por provocar alterações nos batimentos cardíacos.

Na Santa Casa, uma paciente recebeu a medicação. O Austa e o Hospital Beneficência Portuguesa não informaram se fizeram o uso da medicação.

Preparo e isolamento

Para a chefe da UTI do Hospital de Base, o mais recomendado nesse momento é a prevenção. "Muito mais importante que focar numa droga que tem evidências extremamente frágeis, com chances de erros, é focar na organização das UTIs para atender os pacientes de forma rápida. E que as pessoas deixem essa crença de que a doença não é grave e considerem importante o isolamento social".

Segundo Suzana, o preparo dos hospitais e o isolamento social são o que salvam vidas neste momento. "O que faz milagre é evitar essa doença e quando não for possível, ter um bom grupo de intensivistas, fisioterapeutas, emergencistas e pessoas treinadas para atender bem", afirma. "Por isso essas medidas de isolamento social são extremamente importantes. Permitem que a gente vá adaptando a capacidade para que todos sejam atendidos dentro dos melhores protocolos de ventilação e antibióticos adequados".

Discordância

Em artigo publicado no site do jornal Folha de São Paulo, o virologista Paolo Zanotto, que é professor na USP, defendeu a utilização da cloroquina para o tratamento de pacientes com Covid-19. Segundo ele, estudos conclusivos levariam meses ou anos, tempo que não temos, devido à pandemia.

Cloroquina e hidroxicloroquina

  • Medicamento usado no tratamento contra a malária e também em casos de artrite reumatoide e lúpus.
  • Em fevereiro, em meio ao avanço do coronavírus, passou a ser utilizada na China e na Coreia do Sul para o tratamento da doença.
  • Após isso, alguns líderes promoveram o uso, como os presidentes dos Estados Unidos, Donald Trump, e do Brasil, Jair Bolsonaro.
  • Isso gerou uma corrida a farmácias e acabou com estoques, prejudicando quem depende do medicamento para tratar outras doenças.
  • Não há, no entanto, confirmação de que o medicamento é eficaz em todos os pacientes com a doença (há relatos de efeitos colaterais).
  • Em 25 de março, o Ministério da Saúde passou a indicar o medicamento a pacientes em estado grave, baseado em "estudos promissores que demonstram o benefício do uso". Nesta terça, 7, o uso foi liberado para qualquer paciente que esteja internado.
  • A decisão de usar ou não o medicamento é do médico e do hospital.
  • O protocolo prevê cinco dias de tratamento, sempre com acompanhamento do médico.
  • A cloroquina e a hidroxicloroquina podem complementar os outros suportes utilizados no tratamento, como assistência ventilatória e medicações para os sintomas, como febre e mal-estar.
  • Tanto a cloroquina e quanto a hidroxicloroquina não são indicadas para prevenir a doença e nem tratar casos leves.

     

Os antirretrovirais usados para tratamento do HIV também estão sendo testados contra o coronavírus. Pesquisa da Fiocruz constatou que o Atazanavir foi capaz de inibir a replicação viral, além de reduzir a produção de proteínas que estão ligadas ao processo inflamatório nos pulmões e, portanto, ao agravamento do quadro clínico da Covid-19.

Segundo a Fundação, os especialistas também investigaram o uso combinado do atazanavir com o ritonavir, outro medicamento utilizado para combater o HIV. Os pesquisadores realizaram três tipos de análises em laboratório. Eles observaram a interação molecular do atazanavir com a região específica de interesse do coronavírus (a Mpro) e realizaram experimentos com esta enzima.

Também foram realizados experimentos comparativos com a cloroquina. Neste caso os resultados obtidos apenas com o atazanavir e em associação com o ritonavir foram melhores que os observados com a cloroquina, o que motiva a equipe a avançar nestes estudos. O estudo foi publicado na segunda-feira, 6, na plataforma internacional BiorXiv.

"A análise de fármacos já aprovados para outros usos é a estratégia mais rápida que a Ciência pode fornecer para ajudar no combate à Covid-19, juntamente com a adoção dos protocolos de distanciamento social já em curso", defendeu o pesquisador da Fiocruz, Thiago Moreno. (FP)