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DESPEDIDAS SOLITÁRIAS

Coronavírus impõe isolamento até no luto e muda rotina de velórios

Mesmo em casos de mortes suspeitas por Covid-19, funerárias do Noroeste paulista já adotam medidas preventivas nos sepultamentos


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Rio Preto
Funcionários de funerárias estão usando equipamentos extras de proteção durante casos suspeitos de coronavírus
Funcionários de funerárias estão usando equipamentos extras de proteção durante casos suspeitos de coronavírus - Colaboração/SBT Interior - 13.Abr.2020

Desde 4 de abril, quando a primeira morte por coronavírus foi confirmada na região, a rotina das funerárias do Noroeste paulista mudou. Os cuidados tiveram que ser redobrados durante sepultamentos e o manejo dos corpos teve que seguir protocolos do Ministério da Saúde para a não infecção dos funcionários. À dor da perda das famílias também foi ampliada, somando-se a uma outra tragédia de não poder sequer dizer adeus ao ente querido com o caixão lacrado.

Ricardo Hatty, de 56 anos, viveu isso na pele na segunda-feira, 6. Quando recebeu o telefonema do hospital São Domingos informando da morte da tia, Rosa Maria Hatty, de 87 anos. Ele já sabia que ela seria o primeiro óbito confirmado por Covid-19 em Catanduva. Impedido, de vê-la no caixão. A despedida foi rápida para alguém que gostaria de deixar um último adeus a um familiar. “Eu fiz o reconhecimento da minha tia através de uma foto no celular”, contou.

A rápida despedida de aproximadamente três horas, da morte no hospital até o enterro no cemitério da cidade, são as últimas lembranças que o sobrinho possui da tia. “A gente foi pego de surpresa com isso. Minha tia foi internada na quarta-feira da semana passada, depois que começou a ter febre. No sábado ficamos sabendo da confirmação do coronavírus”, relatou o sobrinho que é comerciante na cidade.

O presidente da Associação Brasileira de Empresas e Diretores do Setor Funerário, Lourival Panhozzi, ressalta que além de suspender velórios no período noturno durante a pandemia, em casos suspeitos ou confirmados de Covid-19, os funcionários estão usando equipamentos especiais para a manipulação dos corpos. “Adotamos um protocolo rígido com base em orientações das secretarias estaduais de saúde, Ministério da Saúde e da Organização Mundial da Saúde (OMS)”, falou.

Segundo a médica infectologista Anna Christina Tojal da Silva ainda existem poucas evidências de quanto tempo o vírus fica no corpo do paciente após a morte, mas seguindo as recomendações da OMS os corpos devem ser sepultados rapidamente, pelo risco de contaminação. “Sabemos que em algumas superfícies inanimadas o vírus pode permanecer viável por até cinco dias. Em matéria orgânica em decomposição não temos a resposta”, afirmou.

O médico infectologista Ulysses Strogoff de Matos reforça uma outra necessidade durante a pandemia, o ato das pessoas evitarem velórios com mais de quatro horas de duração até em casos de mortes por outras causas. “Restringir o máximo possível, se a pessoa tiver tossindo ou espirrando não deve ir ao funeral. Além disso, quem for é recomendado evitar contato entre os participantes do funeral, com uma distância mínima entre os participantes”.

Em Rio Preto, desde do dia 24 de março, quando a prefeitura decretou estado de calamidade pública, os velórios na cidade estão tendo duração de apenas quatro horas e com a presença de no máximo de 10 pessoas por sala, com rotatividade. Velórios durante a noite também foram proibidos durante a pandemia.

A medida segundo o administrador da Funerária Fortaleza, Éder José Pereira, fez com que muitos funcionários do turno noturno fossem remanejados para o turno diurno, já que muitos profissionais de serviços funerários com mais de 60 anos foram afastados por estarem no grupo de risco. “Esses equipamentos já utilizávamos em mortes por H1N1”, pontuou.

Para quem trabalha há 20 anos no serviço funerário como João Pedro Parisi, as medidas são necessárias. “O nível de estresse é altíssimo. Eu tenho 52 anos e trabalho há 20 anos na área. A gente percebe que todo mundo tá no limite”, destacou o diretor administrativo da funerária municipal de Catanduva, responsável pelo velório de Rosa Maria, que morreu vítima de coronavírus.

Dor familiar

Além de terem que enterrar o familiar, não poder sequer dizer adeus ao ente querido com o caixão lacrado aumenta a dor das famílias. O infectologista Ulysses de Matos ressalta os cuidados no momento do luto com os familiares. “Primeira coisa é garantir a dignidade dos mortos e das famílias. O respeito de não estigmatizar aquela pessoa que morreu de coronavírus é muito importante”, alertou.

O que segundo o presidente da Associação Brasileira de Empresas e Diretores do Setor Funerário, Lourival Panhozzi, já é notado nos velórios de vítimas de Covid-19. “Até quando é dado o alerta de caso suspeito, as pessoas têm medo de se aproximar e tem vindo menos pessoas nos velórios. E isso cria uma marca muito dura nessa família pra depois carregar”, contou.

A psicóloga Mônica Soares explica que os reflexos desse luto psicológico pode reverter em sintomas físicos. “Essa dor que não foi vivenciada pela pessoa pode se converter em sintomas físicos, como ansiedade, queda da imunidade. E devido essas dificuldades de ter expressado o sentimento nesse momento, ela pode permanecer no estado de luto por mais tempo. É importante que a pessoa que estiver passando por isso, aceitar ajuda, se for o caso fazer uma terapia”, aconselhou.

Velórios preparados

Diferentemente da capital, segundo Lourival Panhozzi, os velórios do interior tem uma maior capacidade de suportar o aumento de atendimentos. “Essas cidades têm uma capacidade de absorver o impacto muito melhor que São Paulo. Porque nós temos na categoria uma rede de apoio. Se Mirassol precisar, Rio Preto vai auxiliar. Nós trabalhamos em microrregiões, onde essa interação é muito mais fácil de operar do que em São Paulo”, apontou.

Sobre os cemitérios de Rio Preto, Prefeitura informou que não houve alterações devido a pandemia e que os cemitérios municipais estão seguindo o planejamento regular para 2020, sem necessidade de alterações por causa da pandemia causada pelo novo coronavírus. “O cemitério São João Batista dispõe, atualmente, de 280 gavetas livres. No distrito de Engenheiro Schmitt, são 100 gavetas livres. Está sendo aberto processo de licitação, já previsto anteriormente e sem relação direta com a pandemia para a construção de 480 novas gavetas”, disse em nota.