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A tecnologia que faz sentido

Gabriel Vital - 04/04/2020 00:05

De médico a cientista da computação. De cientista-chefe da IBM, uma das principais empresas de tecnologia do mundo, a morador do campo no interior de São Paulo. A vida de Fábio Gandour é feita de aparentes opostos, que, em algum momento, se cruzam. Nascido em São José do Rio Preto em 1952, cresceu em Nova Granada, onde estudou até o ginásio. Jovem adulto, desbravou a capital do país para estudar medicina na Universidade de Brasília (UnB). Cursou uma série de disciplinas além daquelas que compunham a formação de médico: de histórias em quadrinhos a psicologia. Mas foi na matemática que encontrou sua paixão. Os números o levaram a uma descoberta de ordem estatística que relacionava causa e efeito no universo das deformidades congênitas, mérito que o levou a ser aceito na Academia IBM de Tecnologia, grupo que reúne acadêmicos da ordem de Johannes Georg Bednorz, que já recebeu o prêmio Nobel de Física.

Em uma entrevista leve e descontraída à revista Vida&Arte, Gandour, que atualmente dá palestras sobre tecnologia, inovação e criatividade, fala de sua trajetória de vida e analisa o cenário da tecnologia hoje. Ele também faz previsões para os próximos anos e um alerta: a sustentabilidade poderá garantir a sobrevivência dos negócios em um futuro (muito) próximo.

Vida&Arte - Apesar de ter se formado médico, você consolidou sua carreira como cientista-chefe da IBM. Como foi essa transição da medicina para a área da tecnologia?

Fábio Gandour - Fiz vestibular de medicina, mas eu frequentei umas matérias um tanto exóticas. E em matemática eu fui bem longe, saí da faculdade de medicina com uma boa formação e acabei fazendo, durante o meu período de residência, uma pequena descoberta matemática de ordem estatística no meu campo de especialização em cirurgia pediátrica, que era a área de deformidades congênitas. Para explorar essa descoberta, eu me aproximei dos computadores e o "vírus" da informática me pegou, eu tive uma "septisemia" computacional e morri (para a medicina). Procurando me profissionalizar na área de TI, mudei de área para fazer um PhD em ciência da computação na Universidade de Stanford.

V&A - E foi isso que o levou até a IBM, a um cargo de grande importância lá dentro?

Gandour - Quando eu terminei a pós-graduação, fui contratado pela IBM para trabalhar na área de informática e saúde. Lá dentro da IBM pude me aproximar de uma área que sempre me encantou, que é a área de pesquisa. Acabei participando do projeto que trouxe o laboratório de pesquisas da IBM para o Brasil. Foi um projeto que levei quatro anos para colocar de pé. E eu friso isso com muita ênfase porque, no Brasil, a gente quer que as coisas aconteçam em um mandato, mas a falta de continuidade é mortal. A IBM não vai abrir um laboratório para fechar no final do mandato. Ele é projetado para durar de 70 a 100 anos. Provavelmente eu não estarei mais enfeitando a superfície do planeta daqui uns anos, mas o laboratório continua.

V&A - E esse foi um dos pontos altos da sua carreira na IBM?

Gandour - Acho que esse foi talvez o momento de maior destaque na minha carreira. Eu trilhei uma trajetória com algumas conquistas. Por exemplo, eu fui o primeiro habitante do hemisfério sul deste planeta chamado Terra aceito na Academia IBM de Ciência e Tecnologia, que é um conjunto de pessoas dedicadas à ciência e à tecnologia que tiveram uma atuação destacada nos seus campos de trabalho. Foi uma coisa tão inusitada que, na época, foi até difícil explicar aqui no Brasil o que significava ser aceito na Academia. E cheguei à conclusão que não adiantava explicar muito. Então, fui à cerimônia de posse e tirei uma foto com Gordon E. Moore, da Lei de Moore e cofundador da Intel Corporation. E tirei uma outra foto com o Johannes Georg Bednorz, prêmio Nobel de Física por descobrir materiais [cerâmicos] supercondutivos. Quando voltei para o Brasil, falei que encontrei esses caras. Foi engraçado porque meu chefe disse: 'esses caras são cientistas de reconhecimento mundial'. E eu respondi: 'pois é, agora nós somos do mesmo time'. Foi um jeito mais simples de explicar o que era a Academia.

V&A - E você deixou a empresa há dois anos. Por quê?

Gandour - Na IBM existe uma regra não escrita que quando você completa 65 anos de idade você vira vaso. É bem verdade que eu ia ser um vaso de porcelana chinesa, bonito, em cima de um piano de cauda. Mas eu não tenho a menor vocação para ser vaso. Fiz uma preparação e me desliguei no dia 12 de fevereiro de 2018. E o curioso é que fui admitido na IBM no dia 12 de fevereiro de 1990, fechando um ciclo de 28 anos.

V&A - Depois de trabalhar em Brasília, Rio de Janeiro, Estados Unidos e Espanha, o que te motivou a fazer o caminho inverso e, agora, buscar o campo?

Gandour - Acho que a gente tem um ciclo de vida no qual a gente tem que respeitar a variação de alguns aspectos, por exemplo, a variação da sua energia, vitalidade, disposição de enfrentar obstáculos urbanos. Respeitando isso tudo, claro, a vida num local mais rural, como é este em que eu estou, pode ampliar um pouco a estrada que você vai percorrer até chegar ao final dessa vida. Além disso, você muda a sua tabela de valores, seus valores estéticos, sociais, a forma como você encara o ser humano. Na grande metrópole, cada ser humano é um possível competidor seu. Aqui, cada ser humano é um ajudante seu. Eu não preciso competir com ninguém, não preciso fechar ninguém no campo, não importa como estou vestido, a cor da minha roupa ou a marca da minha gravata, aliás, acho que nunca vou colocar uma gravata aqui.

V&A - Você acompanhou a evolução da tecnologia desde os primórdios da internet até o surgimento dos smartphones. Mas hoje essa evolução adquiriu um ritmo vertiginoso. Como você acha que isso impacta a vida das pessoas?

Gandour - A tecnologia exerce um fascínio no ser humano. Faz sentido essa paixão? Sim, o homem tem que ter motivações, paixões, ilusões para poder seguir perseguindo seus sonhos. Isso faz sentido. Só que vem aí um treco chamado marketing que doura um pouco essa pílula, fazendo parecer que toda tecnologia é fantástica, sensacional e adequada para você. E você vai, enfia a mão no bolso, pega seu dinheiro e compra aquela tecnologia. E nem sempre ela funciona, ou às vezes funciona, mas não atinge a funcionalidade que você esperava, ou então, pior ainda, promete uma coisa que não entrega. A grande lição que eu quero compartilhar com nossos leitores é que a tecnologia faz sentido, sim, desde que esteja a serviço das pessoas.

V&A - Que pessoas?

Gandour - Do mais alto executivo lá no grande banco da avenida Paulista até o roceiro aqui que está plantando mandioca para corrigir a acidez da terra. Cada um tem uma necessidade tecnológica. É preciso observar essa necessidade e levar a resposta tecnológica ao encontro do melhor atendimento dessa necessidade.

V&A - Todos os dias vemos lançamentos de novos produtos, tecnológicos ou não, que se apresentam como um novo conceito em alguma coisa. Afinal, o que é de fato inovação e o que é uma nova roupagem para uma coisa que já existe?

Gandour - Os evangelistas da inovação acham que inovação resolve tudo, de dívida externa a unha encravada. E não é bem assim. A filosofia ensina que quando você tem dificuldade de definir alguma coisa é melhor ver o que significa seu extremo oposto. Qual é o extremo oposto de inovação? É uma palavra que não existe, mas podemos construir agora: é 'envelhação'. Algo só pode ser inovação se ele também puder ficar velho. E é a busca do novo que ficou velho que traz o progresso, o diferencial competitivo, o impacto positivo. Fora disso, é pura embalagem, marketing e conversa fiada.

V&A - Hoje nossos celulares são supermáquinas, mas também são equipamentos descartáveis, que precisam ser trocados a cada dois ou três anos. Como você avalia esse cenário da obsolescência programada?

Gandour - Um horror! Mas acho que isso tem a ver com a atitude do usuário. O usuário tem que procurar ampliar a vida média do seu celular. O perfil de uso do celular tem que ser no formato de uma curva de Gauss, aquela que sobe e depois desce. Eu compro um celular e vou acrescentando funções a ele, subindo na curva de Gauss. Acrescente funções com muito critério, só instale coisas que de fato vai usar. Se você instalou alguma coisa e percebeu que um mês depois não está usando, desinstale. Jogue fora. Só assim você vai conseguir aumentar a vida média do seu celular. Vai chegar um momento em que você chega no topo da curva de Gauss. Dali para frente ele vai começar a perder funcionalidade. Se você fizer esse procedimento criterioso, você atinge o topo com dois anos. Se não fizer isso, vai atingir esse topo com muito menos tempo e com dois anos será obrigado a trocar o aparelho.

V&A - Fábio, você é conhecido por antecipar cenários e tecnologias. Na sua visão, o que o Brasil pode esperar em termos de inovação para os próximos anos?

Gandour - Acredito que vamos ter de evoluir bastante em alguns aspectos que são cada vez mais aflitivos para a sociedade moderna. O primeiro deles é mobilidade. Finalmente, e muito felizmente, nós vamos daqui para frente perder essa mania de andar de carro. Eu pertenço a uma cultura que foi educada para ter carro. Carro era bom, bacana, um sinal de presença social. E eu mudei a minha opinião a respeito disso, porque o mundo não tolera mais carro. Então, a mobilidade vai mudar. Eu acho que nós vamos voltar a andar de trem. Infelizmente, a criação de uma infraestrutura no modal ferroviário leva mais tempo e não sei se eu vou alcançar a inauguração dessa infraestrutura. Enfim, acho que a mobilidade, principalmente a urbana, vai mudar. Outra coisa que vai mudar é o padrão de geração e consumo de energia. Nós vamos gerar energia a partir de outras fontes. Nós praticamente esgotamos a possibilidade de geração de energia com a água. Não há mais cachoeira ou desnível de queda d'água para produzir energia hidrelétrica no Brasil. Isso vai exigir uma nova atitude pessoal, energia solar, eólica, vinda de biomassa. Essa é uma grande modificação que já está em andamento, mas vai progredir cada vez mais. Se essa mudança no padrão de consumo não acontecer, gostaria de deixar um aviso para as futuras gerações: lamento informá-los, mas vocês vão ter que produzir sua própria energia. Como? Não sei. Talvez pedalando uma bicicleta estática que carrega um gerador. Isso é sério. E um terceiro aspecto preditivo tem a ver com a sustentabilidade, algo que levo muito a sério desde 1973. Acho que ela é uma preocupação que se impõe para os habitantes do Brasil daqui para frente. Alô, empresários de São José do Rio Preto e região, estejam atentos a esses aspectos: mobilidade, produção e conservação de energia, sustentabilidade, porque isso pode garantir a sobrevivência do seu negócio. Se você ignorar aspectos de sustentabilidade, daqui a pouco ninguém mais vai comprar o produto que você vende.

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