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No sofá da vida

Alexandre Caprio - 04/04/2020 00:20

Saudações equipe da revista Vida&Arte. Meu nome é C.S. Estou com 21 anos e namoro há sete meses. Meu namorado é uma ótima pessoa (pelo menos até agora) e não temos grandes problemas. Mas tenho sofrido um pouco com a família dele. Em vários almoços e aniversários em que nos reunimos, eu notei que a mãe dele, duas tias e uma prima mais velha estão sempre juntas cochichando e rotulando as pessoas. Não importa o quando eu tente agradá-las, sempre acabo sendo motivo de assunto em algum momento da festa. Meu namorado já me confirmou que a mãe dele tem uma pirraça de mim, mas que todas elas são assim desde que ele se entende por gente. Eu sou extremamente ansiosa, detesto julgamentos e procuro estar sempre bem com as pessoas. Já fiz de tudo para agradar, já tentei me sentar ao lado delas, mas elas ficam sorrindo, param de conversar e, quando me afasto, continuam. Tem algo que eu possa fazer para reduzir esse conflito na família ou em mim?

Não espere o mundo se tornar um lugar equilibrado para você ter equilíbrio. Isso não vai acontecer. Se para, ficar bem, você precisa que todos gostem de você, então está frita. Em primeiro lugar, sempre existirão pessoas que não aceitarão seu cabelo, sua roupa, sua pele, sua religião, sua ideologia, sua altura, seu filho, gato, cachorro ou papagaio. Em segundo lugar, sempre existirão aqueles que invejarão você. Em terceiro, sempre haverá alguém em algum lugar que terá o reinado ameaçado pela sua chegada. O desalinhamento dos outros não é responsabilidade sua. A sua responsabilidade é parar de sofrer com a existência dos desalinhados.

Essas pessoas que ficam cochichando e virando os olhos para todos os lados, quase como se estivessem tendo um surto epilético, nada mais são do que criaturas que se abandonaram, que deixaram de viver seus sonhos e ideais. São pessoas que não estão construindo nada de relevante, o que as transforma em gente chata, sem assunto e com vidas tão interessantes quanto a de uma lesma em coma. Para compensarem essa monotonia e falta de produção, tornam-se letradas e especializadas na vida dos outros. Observam e analisam todas as ações que elas não criam. Julgam e condenam todas as decisões que elas não tomam. Deixam de promover a própria existência para gastar tempo e energia se entretendo com quem tem vida, com quem faz as coisas acontecerem, com quem se movimenta e existe de fato. Em resumo, você é o Big Brother de indivíduos que passam a vida no sofá.

A inveja, como disse anteriormente, também sempre será a justificativa dos fracos. Quando eu me sinto apto, admiro. Quando me sinto incapaz, invejo. Admiro uma pessoa quando reconheço nela boas ideias que eu também posso seguir para alcançar o que ela conquistou. Invejo uma pessoa quando não vejo em mim a capacidade de reproduzir quem ela é ou o que ela faz. A partir daí, a existência do outro me incomoda porque a superioridade dele passa a ser o meu atestado de inferioridade. Se eu não posso ser como ele, só me resta atacá-lo e derrubá-lo até que ele fique no mesmo nível que eu. Claro que isso raramente dá certo porque o invejado, que quase sempre está ocupado com sua produção, geralmente está se lixando para o invejoso.

Por fim, temos as pessoas que sentem seu reino ser invadido por alguém que chegou recentemente. Acontece muito em duas situações: entre funcionários de empresas e entre sogros e genros. Não é muito fácil para uma mãe ou um pai ser substituído na vida de um filho. Eles sentem que sua importância diminuiu e que outras pessoas estão ficando no seu lugar. São tomados por uma sensação de que o seu tempo passou. Ficam tristes e, algumas vezes, agressivos. É necessário que aprendamos a entender o desequilíbrio do outro começando pela dor do outro. Entender os motivos daqueles que nos ferem, muitas vezes nos traz o entendimento de quem fere, também está ferido. Quando percebemos isso, conseguimos abandonar um pouco da indignação, e a empatia (a capacidade de nos colocarmos no lugar do próximo) nos traz a compreensão de que só resta a quem se abandona ou se sente abandonado gritar por atenção. Tire essa carga do seu coração e caminhe com leveza ao lado de seu namorado. Se você deixar de seguir sua jornada para olhar para quem está estagnado, te julgando, estará se tornando exatamente o que eles são: se afundará no sofá da vida e seu maior feito será apontar para os outros, enquanto se ilude com a ideia de que faria tudo o que eles fazem, só que melhor.

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