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Brasil/Mato Grosso

As cores da mata densa

Cachoeiras são recompensas no caminho


    • São José do Rio Preto
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Quem traz no currículo a experiência de outras travessias encara esta viagem como um passeio por uma sequência infinita de cachoeiras de todos os tamanhos, em trilhas de dia inteiro. Para os iniciantes, é a oportunidade de provar uma travessia moderada com obstáculos naturais, como cruzamento de rios, mata fechada e uma considerável variação de altitude.

A recompensa para ambos são piscinas naturais de água mineral aos pés de cachoeiras impactantes que se ocultam em áreas isoladas. A impressão é de que somos os primeiros a passar por ali.

Durante a travessia, a viagem se alterna entre campos abertos, numa versão mais exigente do Cerrado, e mata densa, que, por vezes, é aberta na hora com facão que corta árvores e galhos recém-caídos. Em três dias de caminhada, não cruzamos com nenhum outro grupo de visitantes e sequer vimos vestígios de urbanização, exceto nas paradas no final de tarde em pontos de apoio simples.

É como estar e não estar, ao mesmo tempo, em área urbanizada. Apesar de o roteiro ter ares de expedição, Barra do Garças, cidade mato-grossense que serve de base para quem visita o Roncador, está sempre ali, a poucos quilômetros de distância.

Passo a passo

Cruzar a pé a cordilheira que segue por 800km de extensão até a Serra do Cachimbo, no Pará, é como brincar de ser Indiana Jones. Mas com estrutura que ameniza as dificuldades da empreitada, como carro de apoio que faz o transporte de bagagem até o local do pernoite seguinte e refeições simples preparadas pela equipe no final do dia. A exceção é a segunda noite, em que o banheiro é a mata fechada; e o chuveiro, o rio. É possível levar a própria barraca ou alugar os equipamentos de camping com a agência que organiza a viagem.

Entre as cachoeiras mais altas do roteiro, o destaque é a Jatobá, uma queda de 79m de altura, no interior de um cânion estreito que exige cruzamento de um córrego, cujo nome é uma referência a um jatobá de mais de cem anos. Em época de chuva, que costuma ir de novembro a março, o poço natural para banho se agita com o vento e com volume maior de água.

Outra potência do roteiro é a Bailarina, conhecida também como Bateia I, cachoeira de 91m de altura que, de tão imponente, pode ser vista, ao longe, da rodovia BR-070. Esta queda d'água com poço para banho é considerada uma das maiores da região do Roncador.

Nova etapa

O segundo dia de travessia tem nível moderado e passa por cerca de sete quedas d'água e piscinas naturais como o Caldeirão da Bruxa e o cênico Poço dos Duendes, cujos nomes não nos deixam esquecer o talento místico da região. "É uma overdose de cachoeiras", brinca o condutor Sérgio Ricardo Luís Ferreira.

A viagem progride em ritmo crescente. Não somente pelo grau de dificuldade, que vai do mais leve ao mais exigente, mas pela beleza cênica que atinge seu ápice, quando a trilha fechada em terreno inclinado finda numa piscina de água mineral com tons de turquesa, sob um paredão por onde escorre uma cachoeira que cai sobre uma espécie de altar natural de pedras encaixadas.

Ainda que faltem seis quilômetros para finalizar o dia, o Santuário das Araras Vermelhas é, sem dúvida, o ponto alto da viagem, escondido no interior de uma fenda.

É tudo tão sensível e isolado que a própria agência que organiza a travessia leva turistas apenas durante o roteiro de três dias de caminhada e não vende saídas exclusivas para esse refúgio de acasalamento e procriação daquelas ruidosas aves do Cerrado.

Nenhum dos atrativos da travessia deve ser visitado sem o acompanhamento de um guia, pois as trilhas de acesso às cachoeiras ficam em propriedades privadas e não contam com nenhuma sinalização.

As exceções são a Cachoeira Cristal, conjunto de quedas abertas ao público, a 55km de Barra do Garças, e o Thermas Água Santa, conhecido pelas piscinas de águas, naturalmente, aquecidas (entre 35° Celsius e 40° Celsius) e acesso a uma praia isolada do Rio Araguaia, na zona rural de Aragarças, no vizinho Goiás.

De outro mundo

Antes ou depois da travessia, vale visitar também o Parque Estadual da Serra Azul, que reabriu para visita pública em 2019, com estrutura como a Trilha das Cachoeiras, caminhada de quase 5km (ida e volta) que passa por até 13 quedas d'água, e o Mirante do Cristo, de onde se tem vista única do encontro dos rios Garças e Araguaia, e das áreas urbanas de Aragarças, Portal do Araguaia e Barra do Garças.

No entanto, a atração mais curiosa desse parque urbano é o discoporto, um projeto de 1995, proposto pelo então vereador Valdon Varjão e que criava uma área para pouso e decolagem de espaçonaves, além de fomentar o turismo ufológico no destino.

A ideia é levada tão a sério que um projeto, avaliado em R$ 100 mil, prevê a construção de um novo "aeródromo intergaláctico", em substituição ao original.

Assinada por Dionísio Carlos, um arquiteto carioca que está há 38 anos em Barra do Garças, a obra será um espaço interativo feito de ferro, estrutura de aço galvanizado e iluminação de LED solar.

"Vou trabalhar nesse projeto como artista e não como arquiteto", explica Dionísio, que chegou à cidade no final dos anos 1970, atraído pelas ideias do sueco Udo Oscar Luckner, para quem a Serra do Roncador abrigava um portal de acesso a uma sociedade intraterrena nos subterrâneos da região, de acordo com a teoria da Terra Oca.

Mais uma das muitas histórias intrigantes que se ouvem por ali.