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Espiritualidade

A dor que ensina

Acontecimentos recentes podem trazer mudanças em prol do respeito e da ética


    • São José do Rio Preto
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Enchentes, deslizamentos de terra com morte, furacões, tsunamis, terremotos e, mais recentemente, a pandemia com milhares de infectados e mortos pelo novo coronavírus (Covid-19). Mas qual a explicação, afinal? Para a doutrina espírita, que acredita na pluralidade dos mundos e na multiplicidade de vidas, estamos numa fase de transição planetária e esses acontecimentos são vistos como fenômenos do próprio progresso cultural da humanidade.

No livro "A Gênese", publicado em 1868 por Allan Kardec, pseudônimo do professor francês Hippolyte Léon Denizard Rivail, ele alerta que a humanidade passaria por uma grande prova, mas para uma mudança de valores para entrar numa categoria moralmente mais elevada. A explicação é dada pelo médium e palestrante espírita Divaldo Pereira Franco em um dos vídeos que circulam pelas redes sociais. "Nós chamamos a situação ético-moral da Terra de mundo de provas, de expiações e de dores. É uma escola. A escola é um educandário de valores, onde existem alegrias e tristezas, mas que também evolui com as criaturas que a albergam, como a escola que recebe o infante para o jardim de infância, como também o homem que vai educar as massas. Estamos nesse processo de mudança de um mundo de provas para um mundo de regeneração, quando as criaturas humanas seremos melhores e a dor fugirá envergonhada porque nossos valores éticos serão superiores às nossas tendências negativas", diz Divaldo Franco.

Transição planetária

"Sabemos que estamos no limiar da grande transição do planeta e, de acordo com a doutrina espírita, já constava no planejamento celestial o processo de transformação que é lento e gradual, passando o planeta Terra da condição de mundo de provas e expiações para um mundo de regeneração", explica a psicóloga Kátia Ricardi de Abreu, estudiosa da doutrina espírita. E continua: "A transição planetária ocorre em favor das mudanças urgentes e necessárias em prol do respeito e ética, transformando o ser humano em um ser integral, consciente de seus deveres para com ele mesmo, Deus e o próximo."

Em palestra recente durante a 12ª Conferência Estadual Espírita, a Expotrade, no Paraná, Divaldo Franco dá mais explicações. "Tenho a impressão que um anjo enviado pelo Senhor, compadecido infinitamente da miserabilidade do ser terrestre, trouxe um pequeno monstro invisível a olho nu, que foi soprado sobre a Terra a fim de que nossas paixões pudessem temê-lo porque nenhuma arma seria capaz de o vencer nas primeiras movimentações em torno do planeta em todas as nações", disse.

Para o jornalista, publicitário e radialista Vislei Bossan, estudioso da doutrina espírita há 50 anos, todos os acontecimentos recentes classificados como trágicos não são castigo ou uma punição de Deus e, sim, lições que serão colocadas em prática mais adiante. "A maior tragédia para o ser humano no momento é a sua fraqueza moral, a sua indiferença, a sua maldade, a sua perversidade e o seu egoísmo, principalmente quando pensa muito mais em si do que no outro", diz.

Ele lembra que enquanto o coronavírus mata hoje algumas milhares de pessoas, muitas mais milhares estão morrendo no mundo, principalmente de fome. "O homem hoje que está empoderado, que está na política, que está com a posse de grandes fortunas materiais, ainda não percebeu, com raríssimas exceções, que ele não é uma ilha, ele faz parte do continente, que tem de olhar para a humanidade como um todo e não para si mesmo", explica.

Observa-se com o novo coronavírus, segundo a psicóloga Kátia Abreu, convites para que o ser humano mude seu comportamento para melhor, altere seus hábitos, abandone seus vícios para promover a instalação dos paradigmas da justiça, do dever, da ordem e do amor. "Esta transformação faz parte do processo de evolução anunciada no capítulo 13 do evangelista Marcos e trata-se de um despertar da consciência para uma conduta pautada nos bons sentimentos, na solidariedade e socorro aos nossos semelhantes diante de tragédias ou não", diz ainda.

A indiferença diante do sofrimento alheio, da fome, da negligência com crianças, idosos, enfermos, alimentada pelo egoísmo e preocupação com banalidades, que predominam na nossa sociedade atual, em contraste com o desenvolvimento tecnológico e científico, apontam a ausência de compaixão e solidariedade entre os seres humanos.

"Comportamentos delituosos insensíveis às aflições do próximo, suborno, extorsão, criminalidade impune, trabalhos organizados para o mal, a serviço da guerra, prejudicando e ceifando milhares de vidas, juntamente com fenômenos sísmicos aterradores sacodem o planeta e a vida em sociedade que ora é convidada a se modificar", explica Kátia.

A Terra está sendo sacudida para despertar para o bem. Do ponto de vista psicológico, podemos evoluir como raça humana, adotando comportamentos coerentes com nossa natureza de seres superiores e racionais. "Isso significa colocar-se no lugar do outro, ser sensível às necessidades não só individuais, mas ter a consciência do pertencimento grupal e social", explica.

Hora de mudar comportamentos

Essa é a hora, segundo Vislei Bossan, do ser humano deixar para trás suas inclinações ruins. "Temos de mudar o nosso caráter ruim. Você é egoísta? Torne-se altruísta. Você é perverso? Torne-se um homem de boas ações. Você tem vícios? Largue os vícios. Você é mentiroso? Não minta. Você calunia? Não calunie mais. Você difama? Não difame mais. Você é desonesto? Passe a ser honesto", sugere. Essa transformação muitas vezes não é uma tarefa fácil. Às vezes nós temos de pagar um preço, temos de sofrer, temos de ser testados. "É como alguém que tenha que passar por uma prova, mas ele terá de estudar e, principalmente, aprender bastante", explica.