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Espiritualidade

Sem esperar nada em troca

Altruísmo promove melhor senso de significado da vida


    • São José do Rio Preto
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Todo mundo certamente já ouviu falar em altruísmo, mas será que você sabe realmente o significado desta palavra? Altruísmo significa, basicamente, ajudar os outros sem esperar qualquer tipo de recompensa, sendo que essa ajuda pode até causar grandes riscos ou custos pessoais. É o sentimento de bondade desinteressada, que coloca outra pessoa acima de si própria.

Altruísmo não é caridade. A palavra foi criada em 1830 pelo filósofo francês Augusto Comte (1798-1857), fundador da sociologia e do positivismo, para caracterizar o conjunto das disposições humanas que inclinam os seres a se dedicarem aos outros. Ou seja: é o contrário do egoísmo.

Ser altruísta, garantem especialistas, nos faz crescer interna e externamente. Quando reconhecemos as necessidades alheias, sentimos nossa percepção do mundo ampliar. A vida tem significados maiores quando somos úteis, nos sentimos mais ativos socialmente e nos tornamos pessoas melhores.

"Não perca a chance de ajudar o próximo sem querer nada em troca. Altruísmo é o ato de ajudar alguém por bondade, sem esperar receber nada em troca. Se você deseja ter uma vida com significado e encontrar o seu propósito, não busque apenas o sucesso. Busque servir aos outros e fazer a diferença na vida dos demais", disse o escritor e conferencista Fábio Teruel, autor do livro "Livre Para Voar" (ed. Sextante).

O psicólogo norte-americano Abraham Maslow (1908-1970) concluiu que o comportamento altruísta é reflexo do bem-estar psicológico. Segundo ele, a pessoa "totalmente humana" é aquela que reflete o "bodisatva" (ser iluminado) oriental. Essa pessoa é compassiva por entender que toda a vida está interligada e ninguém deve jamais vivê-la de forma isolada. Ele afirmava que o altruísmo, a compaixão, o amor e a amizade significam o desabrochar das sementes com as quais todos os seres humanos nasceram.

"Quando pensamos no altruísmo, a intenção é boa e os efeitos são sempre positivos, já que não existe o risco do benefício determinar o enfraquecimento daquele que recebe", escreveu o psiquiatra Flávio Gikovate (1943-2016) psicoterapeuta, conferencista e escritor, autor de livros como "O Mal, O Bem E Mais Além - Egoístas, Generosos e Justos".

No altruísmo, aquele que recebe se beneficia e o uso positivo daquilo que recebe pode lhe ajudar a recuperar a saúde, a aprender mais ou a recuperar uma vida digna de trabalho. Aquele que ajuda pode experimentar um grande prazer por ter dado algo de si, por ter sido realmente útil. Pode, com propriedade, experimentar o genuíno prazer de dar, já que não existe o risco de prejudicar aquele que recebe. "Neste caso, e só neste, cabe a máxima franciscana de que 'é dando que se recebe'", escreveu.

Mas o que torna uma pessoa altruísta, afinal? Um estudo feito pela Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, coordenado pelo professor de antropologia Chris Kiefer, descobriu, nas pessoas entrevistadas, que "altruístas naturais" cresceram em um lar carinhoso. As pessoas criadas por famílias onde não existia amor, ou onde o amor era distribuído de forma injusta, eram menos generosas - lhes faltava confiança e apresentavam um grau de altruísmo e saúde mental bastante inferior. O pesquisador estudou também pessoas que se tornaram altruístas, apesar de infâncias desfavoráveis. Algumas se sentiam alienadas na juventude, porém, mais tarde - devido a uma experiência que os converteu -, descobriram quem eram e qual a sua missão. Outros souberam superar uma infância infeliz através de um difícil processo de autodesenvolvimento, pelo qual compreenderam que seu próprio crescimento e realização implicava a preocupação com o próximo. Segundo Kiefer, a transformação resulta na "união do intelecto com a emoção".

Poderíamos imaginar que o esforço e o tempo dedicados a fazer o bem pode nos prejudicar. Mas não são poucos os estudiosos que mostram que ajudar os outros, mesmo por meio de tarefas mais estressantes, pode acrescentar vários anos à nossa vida.

"Quando nos dedicamos voluntariamente a essa situação, os efeitos do estresse são diferentes dos efeitos daquele causado pelo trabalho, independente da própria vontade, que raramente podemos controlar", escreveu Kenneth R. Pelletier, psicólogo clínico da Faculdade de Medicina da Universidade Stanford. Outro estudo feito na mesma universidade mostrou que pessoas que ajudam ao próximo são mais felizes, especialmente se não contarem a ninguém e não esperarem nada em troca. "Isso porque o altruísmo promove o desenvolvimento do senso de significado para a vida e ativa o sistema de recompensa do cérebro", diz a neuropsicóloga Carolina Marques.

Herbert Benson, professor adjunto de medicina da Faculdade de Medicina de Harvard, garante que ocorre justamente o contrário do estresse. "Nós relaxamos", afirma. O metabolismo, a pressão arterial, os batimentos cardíacos e a respiração diminuem, assim como a ansiedade, a depressão e a irritação.