O fim da procrastinaçãoÍcone de fechar Fechar

Comportamento

O fim da procrastinação

Hábito de deixar tarefas para depois só traz ganhos a curto prazo


    • São José do Rio Preto
    • máx 32 min 18

Se você é o tipo de pessoa que foge das tarefas mais espinhosas ou tenta adiar ao máximo a realização delas, saiba que não está sozinho. O comportamento é mais comum do que você pensa e você faz parte de um time de procrastinadores. A procrastinação afeta cronicamente entre 15% e 20% da população.

A palavra vem do latim pro - "à frente" e cras - que quer dizer "para amanhã". Ela acontece quando adiamos tarefas ou decisões que consideramos difíceis ou desagradáveis, de forma desnecessária ou irracional. Ao deixarmos para depois alguma decisão ou ação, podemos sentir um alívio momentâneo, mas quase sempre acompanhado de culpa e prejuízos posteriores.

Procrastinar significa adiar, deixar para outro dia, mas engana-se quem pensa que isso significa apenas preguiça. O procrastinador tem o desejo de fazer algo, mas não consegue começar. "Isso é resultado da chamada paralisia decisória, que acontece quando temos muitas tarefas para realizar. Ao não conseguir fazer o que é necessário, acabamos nos sentindo mal e nos culpando", explica o consultor norte-americano Petr Ludwig, fundador do procrastinatin.com e orientador de empresas da Fortune 500. Ele acaba de lançar o livro "O Fim da Procrastinação- Como parar de adiar o que precisa ser feito", lançado no Brasil pela editora Sextante.

"A estimativa é que 90% das pessoas tenham esse hábito, assim como 80% dos estudantes, e metade deles tem prejuízos na vida escolar", explica a psicóloga e neuropsicóloga Fernanda Queiroz.

As pesquisas mais recentes mostram que a procrastinação é um problema de regulação das emoções. É mais ou menos assim: quando enfrentamos emoções que consideramos negativas como frustração, ressentimento, monotonia e ansiedade, associadas a uma tarefa, a tendência é procrastinar para regular as nossas emoções. "Porém, quando fazemos isso, o efeito é passageiro, ou seja, no dia seguinte não vamos nos sentir melhor, pelo contrário, estaremos mais estressados e ansiosos por não ter feito o que era necessário fazer", explica Fernanda Queiroz.

Para Petr Ludwig, procrastinar é uma das principais barreiras para que se viva plenamente. Estudos mostram que as pessoas não lamentam as coisas que fizeram, mas as que deixaram de fazer. "O arrependimento e a culpa tendem a nos atormentar por bastante tempo. Ao realizar atividades pendentes, o centro de recompensa do cérebro é ativado com maior frequência, liberando dopamina. Em outras palavras, emoções positivas são geradas. A procrastinação pode ser vencida se melhorarmos a motivação, a disciplina e a objetividade", diz no livro.

Perdas inevitáveis

Esse comportamento pode causar a sensação de conforto ou alívio quando você evita fazer uma coisa, porém, a perda sempre será inevitável. "A procrastinação impacta na vida em geral, nos relacionamentos, no desempenho acadêmico e no trabalho. É preciso ter consciência de que o alívio é temporário, pois os prejuízos chegarão, mais cedo ou mais tarde", explica.

Muitas vezes a preguiça é confundida com o desânimo ou procrastinação, quando, na verdade, uma pode levar à outra. "Isso acontece porque quando temos uma meta muito grande, nós simplesmente começamos a procrastinar por perceber a tarefa como algo que vai exigir muita energia", explica a especialista em produtividade Tathiane Deândhela, autora do livro "Faça o Tempo Trabalhar para você". Então, sempre que tiver alguma tarefa que pareça grande demais para fazer, estabeleça pequenas metas, ou melhor, micrometas. "Além disso, você pode comemorar e se energizar com as suas pequenas vitórias, que te trarão fôlego para completar suas próximas minimetas", diz.

Explicações são variadas

Há várias explicações para as causas desse comportamento: excesso de preocupação com a própria capacidade, desorganização, medo de fracassar, impulsividade, baixo autocontrole, distração, intolerância à frustração, excesso de autocrítica e perfeccionismo. “Também encontramos pessoas que tiveram pais rígidos, controladores, com expectativas muito altas em relação aos filhos”, explica Fernanda Queiroz.

Para a orientadora pessoal e psicóloga transpessoal Wanessa Moreira, é comum essa circunstância em que damos “voltas em volta de nós mesmos”, sempre buscando situações para nos desviar do foco principal. “Nesse momento, tudo o que não é necessário parece se tornar interessante de uma hora para outra como uma boa desculpa que nós contamos, nos sequestrando do nosso objetivo principal”, diz a especialista

A explicação para isso não é tão difícil. O cérebro funciona em tempo presente o tempo todo, por isso, cada vez que você pensa sobre a tarefa a ser feita, para ele é como se você a realizasse naquele momento. "Então, quanto mais você pensa sobre o assunto, mais vezes para sua mente você já o executou, e você é tomado por um cansaço que aumenta a distância entre o pensamento e a execução da tarefa", explica Wanessa Moreira

Segundo a orientadora pessoal, para que a pessoa esteja realmente "preparada" para a tarefa, o cérebro repete esse circuito a quantidade de vezes necessária para atingir o sentimento de estar pronto. "A busca de acerto e perfeição, as dúvidas em relação ao que se deve executar, a falta de domínio sobre o assunto e o medo de ser avaliado, nos coloca nesse ciclo de pensar, pensar e não realizar, pois temos a sensação de não estarmos efetivamente prontos para que a missão seja cumprida", diz a especialista.