A peste da imbecilidade Diário da Região - Painel de Ideias

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    • São José do Rio Preto
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25/03/2020 - 00h30min

Painel de Ideias

A peste da imbecilidade

Usar números distorcidos para negar o impacto da epidemia é má fé. Usar a bíblia como desculpa para renegar a epidemia é distorção da fé. Da política nem vou comentar. Inteligência tem limite

Divulgação Toufic Anbar Neto | mantenedor@faceres.com.br
Toufic Anbar Neto | [email protected]

Pouca gente sabe. Se somássemos todas as guerras que existiram desde os primórdios da humanidade e contássemos todos os soldados abatidos no campo de batalha, o número seria muito menor dos que morreram por conta de epidemias nas próprias guerras.

As epidemias sempre deixaram como saldo milhões de vítimas. A que mais se assemelha com a atual foi a gripe espanhola. Surgiu na Europa no rastro da devastação da primeira guerra mundial. Durou entre 1918 e 1920. O causador foi um vírus influenza, da mesma família do coronavírus. Foi uma pandemia também. Acredita-se que o número de infectados foi de 27% da população mundial. O número de mortos é estimado entre 20 e 100 milhões no mundo. Comparando, a atual pandemia tem uma capacidade de contaminar 70% da população, embora com uma letalidade supostamente mais baixa. O problema é que quem fica mal evolui muito rápido e de forma muito grave. Não dá tempo de fazer muita coisa. Uma polêmica envolve a morte do presidente Rodrigues Alves. A versão mais aceita é a de que morreu de gripe espanhola enquanto há os que digam que ele morreu de beribéri, doença causada por deficiência de vitamina B1.

Outra epidemia marcante na história da humanidade foi a peste negra (peste bubônica). Teve origem nos limites da Índia com a China. Percorreu a rota da seda até chegar no sul da Europa. O causador era uma bactéria transmitida por uma pulga presente em ratos pretos. Durou entre 1333 e 1351. Matou 50 milhões só na Europa. Curiosamente, a Lombardia, onde fica Milão, região norte da Itália, não teve muitos casos, ao contrário do restante do continente. Atribui-se o fato a um tipo diferente de rato existente na região. Ironia do destino, Milão é o epicentro europeu da atual pandemia. Um paralelo entre as duas epidemias é que o mundo nunca mais foi o mesmo. A peste negra praticamente selou o fim da idade média, a idade das trevas. Por enquanto não sabemos que mundo surgirá depois da doença e da crise econômica. Tomara que seja algo parecido com o Renascimento, surgido depois da peste negra, em que floresceram as artes e a ciência.

Daria um tratado falar das outras tantas epidemias que marcaram a história da humanidade. Falarei da atual. O maior perigo que corremos é a ignorância e o obscurantismo. O negacionismo não tem vez quando a catástrofe é de curto prazo. Informações corretas e transparência serão armas importantíssimas no combate à doença. Certa feita, doutor Braile me ensinou (dentre muitas coisas) que "torture os números e eles te dirão o que você quiser". Usar números distorcidos para negar o impacto da epidemia é má fé. Usar a bíblia como desculpa para renegar a epidemia é distorção da fé. Da política nem vou comentar. Inteligência tem limite. Estupidez, não. Imbecilidade mata mais que epidemias!

TOUFIC ANBAR NETO, Médico cirurgião, diretor da Faceres, escritor e imortal da Academia Rio-pretense de Letras e Cultura (Arlec). Escreve quinzenalmente neste espaço às quartas-feiras

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