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Painel de Ideias

Cláudio Malagoli

Um dos fundadores da Associação Rio-pretense de Belas Artes, ele expunha suas telas com timidez e recato. Dizia aprender com os aprendizes. Com refinada técnica, encenava uma saudade encalacrada, convicto de que as trilhas do passado se mesclam ao presente


    • São José do Rio Preto
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Mario Benedetti escreveu: "Não somos europeus e, em consequência, certos fenômenos típicos da vanguarda costumam parecer um desperdício de talento e prematuro museu de novas retóricas". O discernimento do poeta e ensaísta uruguaio é partilhado por artistas e estudiosos que, dissipando o preconceito e afã de se prostrarem ante o desconstrucionismo dos anos 60, valorizam os artistas tratados pejorativamente como "acadêmicos". Ademais, eles suprem o gosto da maioria. Realizam paisagens afetivas, quase sempre bucólicas, nostálgicas, à venda em praças e feiras, ou pintadas em paredes. Nos anos recentes, esse filão de expressão pictórica tem recebido uma revisão crítica, a despeito de acirrados grupos tidos como "vanguardistas".

A reconhecer a validade estética dessas obras, decerto prenhes da estima popular, chamo a atenção para a "Galeria Cláudio Malagoli" numa sala do Centro Cultural de Rio Preto. Não escondo a alegria de ter sido intermediário do empreendimento junto à família do artista. Fui amigo dos irmãos Adelino e Cláudio Malagoli. Um de seus primos, Ado Malagoli, é apontado como relevante personalidade das artes plásticas brasileiras. Deixando o interior paulista, sobressaiu-se em Porto Alegre. Tenho dele um livro de reproduções no qual o escritor Mário Quintana ilustra suas pinturas com belos poemas.

Adelino (1925-1989) e Cláudio (1927-1993), nascidos em Araraquara, eram participativos, generosos. Adelino, professor de pintura, fez parte da primeira Casa de Cultura, em 1946. Cláudio, um dos fundadores da Associação Rio-pretense de Belas Artes, expunha suas telas com timidez e recato. Dizia aprender com os aprendizes. Com refinada técnica, encenava uma saudade encalacrada, convicto de que as trilhas do passado se mesclam ao presente. Com essa ideia, pintou nos anos de 1980 os magníficos trabalhos a retratar cenários rio-pretanos. Era uma espécie de fotógrafo com tinta e pincel. E se baseou rigorosamente em fotos antigas das quais as obras parecem decalques hiper-realistas.

Há, aos montes, pintores que se acham artistas, mas nem sabem pintar; outros sabem pintar, mas não são artistas. Dizem-se "artistas abstratos". Cláudio Malagoli era eclético no estilo não disfarçando o amor pelo impressionismo francês. Ele, ao lado de Alcides Rozani (1930-1997) e Antonio Portella (1920-2014), foi mestre de seus contemporâneos. Ao conceber a coleção de pinturas dedicadas à cidade, não se preocupou com patrulhamentos estéticos ou em estar de bem com veleidades modernosas. Seu academicismo é um impulso inconsciente de descolonizar-se. E de se aproximar das pessoas comuns para conduzi-las a estados emotivos, saudosistas e de pertencimento cultural. Legou-nos um patrimônio valoroso em delicadas imagens. E lá estão, pujantes, uma fortuna de lembranças coloridas, acesas de talento.

ROMILDO SANT'ANNA, Crítico de arte e jornalista. Livre-docente pela Unesp, éimortal da Academia Rio-pretense de Letras e Cultura(Arlec). Escreve quinzenalmente neste espaço aos domingos