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Painel de Ideias

Há tempo de afastar-se de abraçar

Em pleno março de 2020, o chão se abriu debaixo de nossos pés. Um buraco imenso nos jogou na mesma vala do sofrimento alheio. De queixo caído e olhos arregalados, fomos arrebatados para uma experiência sem precedentes. Um tombaço que nos pôs cara a cara com o sofrimento da China, com o choro da Itália


    • São José do Rio Preto
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Alguém anotou a placa do trem desgovernado que atropelou o Brasil e o mundo nos últimos dias? Um pesadelo coletivo? Alguém esperava uma confusão dessas por esses dias? E por esse ano? E por essa existência? Pegos de surpresa, somos só perguntas. Mesmo com tantas informações, somos só dúvidas. A interrogação é a parceira das horas de isolamento. Por que tudo isso? Onde isso tudo vai dar? Planos cancelados. Sonhos desmontados. Projetos adiados. Programas de governo esfarelados para acudir as urgências. O que fazíamos quando a tevê mostrava os chineses construindo hospitais imensos em dez dias? O que pensávamos quando víamos a Itália reclusa enterrar seus mortos? Com certeza pensávamos que a coisa não chegaria até nós.

Acostumados a assistir on-line a desgraça dos outros, somos porto de tranquilidade. A distância dos males, garantida pela comodidade do mundo virtual, transforma nossos universos particulares em oásis de calmaria. A dor do outro lado da tela não nos incomoda, está muito longe para o nosso braço alcançar, confortar, acarinhar. Já que nada se pode fazer, seguimos absolutamente em paz. Mas eis que, em pleno março de 2020, o chão se abriu debaixo de nossos pés. Um buraco imenso nos jogou na mesma vala do sofrimento alheio. De queixo caído e olhos arregalados, fomos arrebatados para uma experiência sem precedentes. Um tombaço que nos pôs cara a cara com o sofrimento da China, com o choro da Itália.

Agora somos iguais. O medo e o pânico nos assemelharam. Agora sim somos criaturas idênticas. E o desafio será provar, não sem a angústia de um amor esforçado e genuíno, que somos humanos solidários. É o que lembra o autor de Cem Anos de Solidão, Gabriel García Marques, "o amor torna-se maior e mais nobre na calamidade." O bicho com nome de chuveiro é o que nos separa e nos une. Nos separa para que possa ser derrotado em generosidade aos mais vulneráveis. Essa separação temporária é o elo fraterno que hoje nos une.

A Bíblia diz que "há tempo de abraçar e tempo de afastar-se de abraçar". A sabedoria de Deus às vezes é tão singela e básica, mas tão absurdamente necessária para afagar nossos corações aflitos e mentes assustadas. Assim, para nós neste momento, vale lembrar o que está em Eclesiastes. "Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu. Há tempo de nascer, e tempo de morrer; tempo de plantar, e tempo de arrancar o que se plantou; Tempo de matar, e tempo de curar; tempo de derrubar, e tempo de edificar; Tempo de chorar, e tempo de rir; tempo de prantear, e tempo de dançar; Tempo de espalhar pedras, e tempo de ajuntar pedras; tempo de abraçar, e tempo de afastar-se de abraçar; Tempo de buscar, e tempo de perder; tempo de guardar, e tempo de lançar fora; Tempo de rasgar, e tempo de coser; tempo de estar calado, e tempo de falar; Tempo de amar, e tempo de odiar; tempo de guerra, e tempo de paz." Vai dar tudo certo, eu creio!

ELMA ENEIDA BASSAN MENDES, Jornalista e escritora em Rio Preto. Escreve quinzenalmente neste espaço aos sábados