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Painel de Ideias

A peste

Agora, em tempos de rede sociais e comunicações instantâneas, nem precisamos mais de um local isolado para reunir os amigos fisicamente. Isole-se na sua residência, forme uma rede de amigos, também isolados, e conte fábulas que poderão se tornar uma fanfic...É melhor que inventar fake news


    • São José do Rio Preto
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Finalmente, emergimos em nossa Oran. A peste chegou.

Estamos ilhados sem a presença benfazeja do doutor Rieux. A peste moderna não viaja mais em navios precários, nem embrulhada em rolos de seda dos tempos de Marco Polo. Ela é célere, insidiosamente veloz, boiando nos ares pressurizados dos aviões. Antes, levava-se anos para um rato empestado sair da Ásia em direção à Europa; ou ao contrário. Quem disse que a Europa não levou a peste antes para a Ásia, em suas cruzadas assassinas à sombra da cruz e em nome da fé?

Há anos, desde criança, eu lia nos para-choques de caminhões a frase "mantenha distância" e vivia me perguntando por quê. Quando obtive a CNH, aprendi que era uma distância para que, numa emergência, você tivesse espaço e tempo para frear o veículo e não bater na traseira do caminhão ou do automóvel que estava na sua frente. Agora estamos com o desprazer de manter distância das pessoas que amamos.

Não abrace. Não beije. Não fale a menos de dois metros.

O que fazer com nossa latinidade, nossa efusividade, nosso desejo de estreitar junto a nós as pessoas que queremos bem?

Não podemos dar colo. Não podemos receber colo. Nem ombro. Como vamos chorar nossos mortos sem receber um abraço amigo? Como vamos lamentar nossa fossa sem aquele ombro do amigo próximo? Como vamos aconchegar no peito nossos pais, filhos e irmãos? O mundo já estava tão chato com algumas pragas do politicamente correto...

O que fazer no isolamento ou na quarentena? Talvez juntar um grupo de amigos e ir para um sítio (cuidado, sítios estão perigosos ultimamente, servindo para queima de arquivos: veja o caso do capitão Adriano, na Bahia, e o do Gustavo Bebbiano, no Distrito Federal!) e passar as horas contando histórias como o fizeram Pampineia, Filomena, Fiammetta, Neífile e os outros seis companheiros de fábulas. Boccaccio, aliás, foi mais generoso com as mulheres há quase 700 anos que nós nos dias de hoje: seu livro, o Decamerão, tem dez personagens: sete são mulheres. Apenas três homens: Dionéio, Filóstrato e Pânfilo.

Boccaccio usa a peste negra, que se espalhou pela Europa entre 1346 e 1353 matou cerca de 200 milhões de pessoas para narrar as histórias que dez jovens, isolados para fugir da doença, contaram entre si, para fugir da monotonia e afastar o tédio. Cada um devia contar uma fábula. Foram dez dias e cem histórias. Algumas bem picantes para a época; outras, verdadeiras críticas aos costumes sociais, culturais e religiosos daqueles tempos.

Agora, em tempos de rede sociais e comunicações instantâneas, nem precisamos mais de um local isolado para reunir os amigos fisicamente. Isole-se na sua residência, forme uma rede de amigos, também isolados, e conte fábulas que poderão se tornar uma fanfic... É melhor que inventar fake news.

Caso prefiram, que tal aprofundarem-se na leitura de Giovanni Boccaccio e Albert Camus? Quem sabe possam tirar da leitura dos dois clássicos ensinamentos sobre a peste que agora ganhou nome de vanguarda: pandemia. Tem coisas que o cotidiano não nos permite mais, como uma boa leitura, com o corpo esparramado em uma rede ou em um puff!

Podem também recorrer aos filmes. O diretor argentino Luis Puenzo filmou A Peste com um elenco de dar inveja: William Hurt, Jean-Marc Barr, Robert Duvall, Raul Júlia, Sandrine Bonnaire, Victoria Tennant entre outros, com trilha sonora de Vangelis. O Decamerão (título em português) foi filmado, em 1971, por Pier Paolo Pasolini. No elenco, a belíssima Silvana Mangano. A trilha sonora é de Ennio Morricone.

Quem sabe a peste do coronavírus não seja um recado da Natureza pedindo para o homem ir mais devagar e aproveitar melhor a vida! Quem sabe este seja um tempo de pausa.

LELÉ ARANTES, Jornalista, escritor, historiador e imortal da Academia Rio-pretense de Letras e Cultura (Arlec). Escreve quinzenalmente neste espaço às quartas-feiras