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ARTIGO

A poluição do ar e o vírus

Dados sugerem que o risco de propagação pelo ar em Rio Preto seria menor que Wuhan e Bérgamo


    • São José do Rio Preto
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O ar é uma mistura de diversos gases, como o Oxigênio (21%), o Nitrogênio (78%) e o Gás Carbônico (0,04%). No ar há também as micropartículas sólidas e líquidas suspensas como o material particulado - MP. O MP é composto de poeiras como a argila, pó de pedra (filler), pólen, sulfatos, nitratos, o carbono mineral gerado pela queima de lenha, de carvão e derivados de petróleo.

O MP é classificado como MP2,5 micrômetros quando o diâmetro aerodinâmico é menor que 2,5 micrômetros (1 micrômetro = 1/1000 de milímetro). O MP2,5 é uma partícula inalável pois vence as defesas respiratórias, chega aos alvéolos e atinge a corrente sanguínea podendo causar doenças respiratórias, cardiológicas e até mutagênicas.

A princípio quanto maior a concentração de partículas inaláveis no ar mais fácil seria a propagação do coronavírus 2 (Sars-Cov-2). Os vírus são partículas com diâmetro entre 10 a 300 milésimos de micrômetros, menores que o MP2,5. Assim os vírus flutuariam ou adeririam ao MP2,5 e se propagariam entre as pessoas. Isso desde que não exista incompatibilidade química entre o coronavírus e o MP2,5.

Pesquisas laboratoriais indicam que o coronavírus sobrevive em aerossóis (poeiras no ar) por até 3 horas. A proximidade das pessoas, tosses e espirros favorecem a transmissão aérea. O contágio individual depende da quantidade absorvida de vírus e da imunidade da pessoa. A chance de uma pessoa se contaminar pelo ar externo (ruas, parques, jardins), sem aglomerações parece ser remota.

A disseminação do coronavírus iniciou-se em Wuhan (11 milhões de habitantes), na China. Em Wuhan em 2019 a concentração média anual de MP2,5 foi de 44 microgramas/m³ (4,4 vezes mais do que o recomendado pela Organização Mundial da Saúde). No momento o foco da pandemia é na Itália sendo Bérgamo (120.000 habitantes) muito afetada. Em Bérgamo a concentração média anual de MP2,5 em 2019 foi de 19 microgramas/m³, 43% da de Wuhan. Em Wuhan o ápice da poluição do ar ocorre em fevereiro com 60 microgramas de MP2,5/m³. Em Bérgamo a poluição do ar também é intensa em fevereiro, mas com 36 microgramas de MP2,5/m³. Contudo em Wuhan a epidemia cessou e em Bérgamo ela perdura. Isso porque o isolamento social imposto na China foi eficiente e na Itália não.

Em Rio Preto em 2019 houve uma concentração média anual de MP2,5 de 15 microgramas/m³. O ápice da poluição do ar é em setembro com 27 microgramas de MP2,5/m³. Esses valores estão abaixo de Bérgamo e de Wuhan. Além disso a radiação solar e a temperatura são mais elevadas. Esses dados sugerem que o risco de disseminação do coronavírus pelo ar externo em Rio Preto seria menor que Wuhan e Bérgamo.

Todavia os infectologistas e os epidemiologistas recomendam muita precaução pois não se conhece a patogenicidade do coronavírus, principalmente em clima tropical. Espera-se que o isolamento da população seja eficaz e que não ocorram por aqui as centenas de mortes que estão acontecendo em Bérgamo.

José Mário Ferreira de Andrade, Engenheiro civil e sanitarista; Rio Preto