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    • São José do Rio Preto
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18/03/2020 - 00h30min

ARTIGO

Nós, estranhos seres humanos

Esse nosso "tempo de apartar-se" pode ser, na verdade, um tempo de cuidar. Do outro e de nós

Como somos estranhos! Eu, você, todos nós! Antes do coronavírus , em nossos contatos sociais, alguns, se não todos, após um breve momento de olho no olho, buscavam o celular e logo dividiam sua atenção entre a conversa real e a virtual. Assim, nos afastávamos de quem estava perto e nos aproximávamos de quem estava longe. Quantos e quantos artigos e alertas foram escritos para apontar para essa realidade, para nos ensinar a permanecer no aqui e agora. Mas, parecia em vão...E agora, quando os alertas se dão no sentido inverso, pedindo que cada um se mantenha o máximo de tempo possível em seu casulo, quanta reclamação temos feito ou ouvido!

Somos um povo de origem latina, a mesma dos italianos, que tanto estão sofrendo com as consequências desastrosas desta pandemia horrível. Já se lê que o aumento vertiginoso dos casos de corona, na Itália, pode estar relacionado aos hábitos de convivência, que sempre prezou por alegres encontros, abraços, beijos e apertos de mão. Somos também calorosos, sentimos prazer em abraçar, beijar, demonstrar nosso afeto com manifestações físicas. Até aí, ótimo. Que bom que seja assim. Bom e importante!

Mas, não podemos nos esquecer do que até a Bíblia nos mostra, em Eclesiastes 3: "Para tudo há um tempo, para cada coisa há um momento debaixo do céu: tempo de nascer e tempo de morrer, tempo de chorar e tempo de rir; tempo de abraçar e tempo de apartar-se..." Olhando para a sabedoria dessas palavras, fico me perguntando porque relutamos tanto em aceitar a presença desses contrastes da vida. Seria imaturidade psicológica? Necessidade de controle? Necessidade patológica de vivenciar apenas a alegria?

Sobre nossa necessidade de controle, basta olhar para o caos mundial que um vírus microscópico ocasionou para concluir que não faz sentido nos apegarmos ao controle de uma maneira neurótica e obsessiva. Não temos controle sobre nada! E aqui, "nada" significa "nada", mesmo. Se, por uma lado, a grande revolução de Freud nos alertou sobre nossa falta de controle sobre sentimentos, emoções e ações; por outro, um vírus microscópico nos evidencia nossa limitação. Que golpe em nosso narcisismo e onipotência! Que difícil aceitar que não somos donos nem de nós mesmos; que precisamos, humildemente, tentar conhecer melhor nossas motivações inconscientes e que, quando se fala dos fatos da vida, então... A grande verdade: o controle é sempre limitado...

Sobre a necessidade de se desejar uma feita só de alegrias, as redes sociais estão repletas de fotos maravilhosas, com cenários perfeitos, pessoas sempre sorridentes e bonitas. Mas, salvo engano, me parece que esses momentos de maior "solidão", agora, são recusados como se fossem ervas daninhas a serem extirpadas sem dó. Que pena! Assim, não elaboramos nossos lutos, não entendemos nossas fraquezas, não nos permitimos ser plenamente humanos, apenas humanos...

Outra contradição que está aflorando nesses tempos difíceis é a capacidade de suportar o tédio. Se antes reclamávamos da falta de tempo para ler, assistir a bons filmes ou até mesmo ter uma boa conversa com alguém querido, hoje reclamamos da falta do que fazer, e muitos se recusam a diminuir seu convívio social sob a desculpa de ter uma necessidade vital do mesmo. Sim, somos seres sociais, e como tal, voltaremos a nos relacionar livremente, com beijinhos, abraços e apertos de mão. Mas será tão penoso assim nos abstermos por um tempo determinado? Seria mesmo tão custoso convivermos um pouco com o silêncio e a reflexão?

Está circulando no WhatsApp uma comparação muito bem feita entre a alta quantidade de vírus que se propaga num beijo, num aperto de mão, e o gesto que se faz ao cumprimentar o outro com uma reverência dizendo "Namastê". A reverência, isenta de contaminação viral, pode vir carregada de amor, respeito e carinho. Em tempos de pandemia, demonstra cuidado conosco e com os outros. Demonstra amor.

Então, esse nosso "tempo de apartar-se", pode ser, na verdade, um tempo de cuidar. Do outro e de nós! Que possamos aproveitá-lo para ler bons livros, assistir a bons filmes, fazer caminhadas junto à natureza, orar, meditar, ficar em silêncio e amar verdadeiramente. E, sobre a saudade de quem está longe, que tal conversar de verdade pelo velho e útil telefone? Não tem mais? Então pelo novo e eficiente WhatsApp. Não será olho no olho, mas pode ser coração no coração. Namastê!

Vera Paraboli Milanese, Psicologa clínica, mestre e doutora pela Unesp, pós-doc pela USP, membro da Academia Rio-pretense de Letras e Cultura

 

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