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LITERATURA

Obras de ficção dão lições de como encarar a pandemia

Vendas de livros de ficção que se passam em situações de epidemias disparam na Europa, no Brasil a procura ainda é tímida; afinal, quais lições podemos tirar de "A Peste" e "Ensaio Sobre a Cegueira"?


    • São José do Rio Preto
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Um dia normal na cidade. Os carros parados numa esquina esperam o sinal mudar. A luz verde acende-se, mas um dos carros não se move. Em meio às buzinas enfurecidas e à gente que bate nos vidros, percebe-se o movimento da boca do motorista, formando duas palavras: "Estou cego". Assim começa o romance de José Saramago "Ensaio Sobre a Cegueira". A "Treva Branca" que acomete esse primeiro cego vai se espelhar de maneira incontrolável e, em pouco tempo, uma multidão precisará aprender a viver de novo, em quarentena.

A obra de ficção publicada em 1995 entrou na lista dos livros mais vendidos nas últimas semanas em países da Europa, em meio à pandemia do novo coronavírus (Covid-19). Além do livro de Saramago, obras de ficção que se passam em situações de epidemias ou que descrevam doenças que assolaram o mundo no passado estão entre os mais procurados.

É o caso do romance "A Peste", do escritor franco-argelino Albert Camus, que se tornou Best Seller na França e dobrou o número de venda nas oito primeiras semanas de 2020.

No Brasil, o romance de Camus foi o segundo livro mais vendido da semana pelo portal Estante Virtual, que reúne o acervo de sebos e livreiros do País. A obra de Saramago ocupa a sexta posição no mesmo site. A Amazon italiana tem diversos livros de ficção e não-ficção entre os mais procurados. Um exemplo é o "Spillover: L'evoluzione delle pandemie" (Transbordamento: A evolução das pandemias, em tradução livre), do cientista norte-americano David Quammen.

Mas, por que o interesse nessas obras de ficção? Qual a relação que elas podem ter com nossa atual situação? Quais lições podem ser deduzidas com base nessas narrativas?

"A Peste" é considerado o grande romance do escritor e pensador Albert Camus. A narrativa é ambientada em Oran, na Argélia. O romance trata de uma longa e forçada quarentena, a qual os habitantes da cidade são submetidos, depois de verem muitos cidadãos, parentes e amigos morrerem pela peste, transmitida pelos ratos que invadiram a cidade.

Para o professor de Teoria Literária da Unesp, em Rio Preto, Márcio Scheel, doutor em Estudos Literários pela mesma universidade, o aumento nas vendas de "A Peste" em países da Europa e outras regiões do mundo é algo bastante curioso, já que a obra trata-se de um romance alegórico. Seu contexto de publicação, 1947, ocorre apenas dois anos depois do fim da Segunda Guerra Mundial, o que leva a uma interpretação mais política, da peste como uma representação da ocupação nazista na França.

"Nesse sentido, os ratos são os próprios nazistas, bem como a peste acena para a ideologia, a força, a perversão e a violência com a qual o regime ameaçou a Europa. Do mesmo modo, o protagonista, Bernard Rieux, médico, irá representar aquele que organiza a resistência e a luta contra a praga invasora", explica Scheel.

Ele aponta algumas coincidências importantes que se passam no livro com a atual situação vivida por diversos países, que lutam contra o avanço do Covid-19. No romance, também se estabelece uma quarentena, que, mais tarde, se transforma em estado de sítio. As autoridades também resistem, desde o início, a tomar medidas mais duras para o controle da peste, porque temem os prejuízos econômicos que tais medidas possam provocar. Os cidadãos, no início, também não compreendem a seriedade e a gravidade da epidemia, o que faz com que ela se espalhe rapidamente, alcançando uma letalidade imprevista.

"Do mesmo modo, vemos, no romance, a força da desinformação, do medo e da paranoia, bem como a irresponsabilidade daqueles que duvidam dos acontecimentos e, por isso mesmo, se sujeitam à exposição e à doença, contaminando-se, disseminando o bacilo, morrendo e agravando ainda mais a situação já precária e dramática na qual a cidade se vê mergulhada", explica. Também é possível notar a solidariedade de quem se dedica a ajudar as pessoas, resistir ao caos e lutar contra a praga e contra a irresponsabilidade cega dos cidadãos e governos.

Para o pesquisador, enxergar a literatura como algo pedagógico, ou seja, que pode nos ensinar algo, pode ser uma visão platônica. Mas ele ressalta que a leitura do romance pode levar o leitor a deduzir que é necessário compreender, se opor, lutar e resistir contra tudo aquilo que nos ameaça e constrange, seja a doença, a epidemia ou as forças políticas antidemocráticas e autoritárias.

"Mas também, e sobretudo, que é preciso perseverar numa solidariedade profunda, que nos humanize de fato, que nos vincule aos outros pelo caminho do entendimento, o respeito, a compreensão. Uma solidariedade baseada na percepção de que nossa condição humana é frágil, de que temos medo, de que nos desesperamos e, por isso mesmo, é necessário resistir ao assédio do pânico e da angústia, da paranoia e da loucura, se quisermos vencer as circunstâncias que nos cercam, a epidemia e as adversidades que ela trouxe consigo", destaca o professor universitário.

Albert Camus (1913-1960) cresceu na Argélia, onde estudou filosofia. Foi um dos principais representantes do existencialismo francês, influenciando de modo decisivo a visão de mundo da geração de intelectuais rebeldes da época do pós-guerra. Em 1957, Camus foi agraciado com o Prêmio Nobel de Literatura.

Treva Branca

A obra "Ensaio Sobre a Cegueira" guarda relações de proximidade muito fortes com o romance de Camus. Em ambos, são narradas epidemias que começam com um único homem e rapidamente se espalham pelos cidadãos, fugindo ao controle das autoridades.

No caso do livro de Saramago (1922 - 2010), moradores de uma cidade são atingidos por cegueira branca que toma o mundo todo, com exceção de uma mulher, que será a testemunha de uma barbárie que ameaça colapsar toda uma ordem social em si mesma já muito frágil.

"O romance de Saramago também é alegórico, e a cegueira pode ser interpretada justamente como um desses eventos singulares, profundos e perturbadores que fazem emergir as fraquezas, debilidades, desvios e primitivismos que restam, muitas vezes, ocultos no caráter dos homens", afirma o pesquisador.

Na narrativa, as bases legais, éticas, morais e culturais que regem a vida social desmoronam diante de uma epidemia incompreensível. A população se torna refém do medo, da superstição, da violência e da perversidade que marcam o desespero pela sobrevivência e manifestam egoísmo, a autopreservação a qualquer custo, o conflito e o ódio.

Para o pesquisador, a crítica que o romance apresenta é sobre a tendência à irracionalidade mais instintiva e ao oportunismo cego praticados pelas pessoas diante de circunstâncias extremas, ou nem tão extremas assim. "A crítica mais incisiva que o romance coloca em jogo é aquela que nos faz considerar que a vida em sociedade está sempre muito mais ameaçada por nossos comportamentos imprevisíveis, irracionais, cínicos e egoístas do que por qualquer força externa mais ou menos perturbadora. A maior delas, talvez, seja a de que o medo é um péssimo conselheiro, o pânico um inimigo da civilidade e o irracionalismo o princípio da barbárie".

José Saramago exerceu diversas profissões, como serralheiro, desenhista, funcionário público e jornalista, antes de se dedicar só à literatura. Em 1998, ele recebeu o Prêmio Nobel de Literatura.

O professor universitário esclarece que, ainda que se possam deduzir lições a partir dos romances, é preciso ter em mente que eles não oferecem soluções milagrosas para os problemas mais concretos. Dessa forma, é um risco usá-los como manual ou um guia para a vida diária e as circunstâncias excepcionais. "A ficção é uma outra forma de ver o mundo, mais livre e menos comprometida com a verdade lógica, filosófica, social ou política. Logo, esses romances não podem ser procurados como um instrumento de compreensão do estado de coisas que estamos vivendo agora. Preocupa que o que leve as pessoas a ler seja mais a histeria e menos o desejo de se humanizar de fato", finaliza.