Comerciantes e indústria temem prejuízos com o coronavírus Diário da Região - Rio Preto e região

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    • São José do Rio Preto
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22/03/2020 - 00h30min

IMPACTO DESASTROSO

Comerciantes e indústria temem prejuízos com o coronavírus

Coronavírus cai como uma bomba sobre a economia de Rio Preto; ainda não se pode medir o tamanho do prejuízo, mas mesmo antes de decreto alguns segmentos já sentiam queda no movimento de até 90%

Johnny Torres 18/3/2020 Carmen Pestilo, gerente da Oscar Calçados: para diminuir prejuízos, a loja cortou premiação e adiantou férias de funcionários
Carmen Pestilo, gerente da Oscar Calçados: para diminuir prejuízos, a loja cortou premiação e adiantou férias de funcionários

A pandemia de coronavírus - além de toda preocupação com a saúde da população - impacta diretamente na economia. E, num mundo globalizado, tudo está interligado. Em Rio Preto, ainda não é possível mensurar os prejuízos nas diferentes atividades econômicas, mas mesmo antes do decreto que determinou o fechamento do comércio a partir desta segunda-feira, 23, - exceto para serviços essenciais - já era nítida a queda no movimento de consumidores em muitos estabelecimentos. O calçadão e os principais shopping centers ficaram praticamente vazios nesta semana. Não se sabe quanto tempo isso tudo vai durar, mas os prejuízos são certos. Só não se sabem as cifras.

Os principais setores que já sentiram a queda das vendas são aqueles de bens não essenciais. Entram nesta lista confecções, brinquedos, acessórios, entre muitos outros. De acordo com o Sindicato do Comércio Varejista (Sincomercio), no curto prazo, o consumo prioritário deve ser de produtos básicos como alimentos, remédios e itens de higiene. "O que houve foi uma queda brusca de movimento. Como essa questão impacta na vida financeira das pessoas, a prioridade é com os gastos essenciais e a tendência é de que haja muitos prejuízos", afirmou Orvásio Tancredi Júnior, diretor da entidade de Rio Preto.

Para o presidente da Associação Comercial e Empresarial de Rio Preto (Acirp), Paulo Sader, diante desta situação imponderável, tudo o que se disser que pode ocorrer é especulação. Para ele, ainda é cedo para quantificar os prejuízos, mas com a redução de pessoas fazendo compras e ficando mais em casa, há uma queda na demanda por produtos e serviços. "Os setores menos essenciais vão sofrer mais porque o momento é de atender necessidades básicas", afirma.

Por conta disso, a recomendação é que os comerciantes de bens duráveis não ampliem seus estoques. Não é momento de investir, fazer dívidas ou assumir compromissos no longo prazo. Nesta lista, vale incluir economizar para garantir caixa para a hora da retomada, segurar ao máximo para enfrentar as despesas. "São problemas inéditos que exigem soluções na base da calma, sem pânico, mas é preciso reduzir custos", disse.

Outra dica, segundo o Sincomercio e a Fecomercio, é atenção ao fluxo de caixa e aos gastos fixos. Outra orientação é sobre opções de atendimento à distância, utilizando redes sociais, ou de entregas seja pelos Correios - para todo o Brasil - ou por aplicativo e motoboy.

Na loja Duli, cujo mix de produtos é da ordem de 15 mil itens, as vendas caíram 30% nesta semana. "O fluxo de gente no Calçadão é bem maior; agora, o consumidor sumiu. As pessoas estão se precavendo", afirmou o gerente André Bruzadin. Segundo ele, as compras se fixaram em itens para o dia a dia, apenas para suprir uma necessidade do cotidiano. Por conta disso, as renovações e novidades de produtos que deveriam estar sendo feitas foram adiadas. "Estamos com o pé bem no chão. Reforço o estoque apenas do que não posso ficar sem".

Na loja Oscar Calçados, também no Calçadão, o movimento caiu 50% nos últimos dias, surpreendendo a gerente Carmen Pestilo. "Normalmente, em véspera de feriado o pessoal vem com a família, mas vimos pouco fluxo. Para diminuir os prejuízos, a loja tem cortado custos, como a premiação aos funcionários e adiantando as férias. Na semana passada eram 20 funcionários trabalhando, reduzidos para dez nesta semana.

"É uma situação instável. Meu supervisor estava aqui outro dia e, com 30 anos de experiência, disse que nunca tinha passado por uma situação parecida", comentou a gerente.

Na loja Mega Jeans, a queda no movimento foi de 70% desde a última segunda-feira, 16. "A terça foi o pior dia. Prejudica as metas, mas ainda estamos estudando as medidas que vamos tomar", afirmou a sub-gerente Patrícia de Moraes. São nove funcionários na loja de roupas. "Não paramos para calcular o valor do prejuízo", afirmou.

O gerente da Rua Brasil, Valdir Barbosa, também registrou queda abrupta no movimento, de 90%. "Desde segunda foi uma queda brusca de clientes e continuou caindo. Vemos de quatro a cinco pessoas na rua. Elas estão respeitando o pedido de ficar em casa", afirmou. O momento é preocupante, afirma, e de incertezas. Enquanto estavam na loja, os funcionários aproveitam para fazer arrumações e maior higienização do ambiente.

(Colaborou Victor Stok)

Indústrias preocupadas

Nas indústrias de Rio Preto, por enquanto, o que existe é um reforço em relação aos cuidados de higiene. A orientação do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp) é para que as indústrias adotem o trabalho remoto para funcionários e diretores em situação de vulnerabilidade, ou seja, aquele com mais de 70 anos, em tratamento oncológico ou pós-operatório, que seja portador de diabete, problema respiratório, seja cardíaco, que tenha saúde frágil ou o sistema imunológico enfraquecido.

Em Rio Preto, ainda não havia casos de férias coletivas, como em algumas montadoras no Estado. "Agora é preciso criar um plano de contingenciamento bem detalhado para conhecer os riscos e minimizá-los. É preciso ter muita calma para não tomar decisões com medo", sugere o diretor regional do Ciesp de Rio Preto, Luiz Fernando Lucas.

Para ele, alguns setores - não essenciais - vão sofrer mais, e já se sentem reflexos como redução ou paralisação de pedidos. Outro problema é a falta de matéria-prima vinda do exterior. "Algumas matérias-primas para produtos sanitários e álcool estão mais caras e em falta", disse.

Segundo ele, o custo fixo de uma indústria é grande e pesa quando ela não está capitalizada. É preciso caixa para pagar custos fixos, funcionários e fornecedores. Outro problema é que a indústria brasileira ainda não se recuperou da crise dos últimos anos, muitas que estavam na corda bamba agora podem não se reerguer. E as que estavam se recuperando lentamente devem interromper o movimento." (LM)

Importadores temem falta de matéria-prima

O comércio exterior também é impactado pela disseminação do coronavírus. É que boa parte das importações vem da China, país onde o problema começou e que enfrentou além da quarentena, um período de paralisação pelo feriado chinês. Por aqui, os reflexos passam pela falta de matéria-prima ou algum insumo para montar o equipamento produzido pela empresa, assim como temor em descumprir prazos e preocupação com o fim do estoque.

No primeiro bimestre deste ano, as exportações em Rio Preto atingiram US$ 2,89 milhões, o que corresponde a R$ 14,45 milhões, no cálculo considerando o dólar a R$ 5. Ao mesmo tempo, as importações atingiram US$ 20,71 milhões, o que representa R$ 103,5 milhões. O resultado é uma balança comercial negativa em US$ 17,83 milhões, ou seja, R$ 89,15 milhões.

Para o despachante aduaneiro Paulo Narcizo, o desabastecimento de produtos importados, de revenda ou de matéria-prima, vai provocar a falta de produtos e, consequentemente, um aumento generalizado nos preços. "Além disso temos o aumento do dólar, que encarece as importações, cujo aumento será repassado ao consumidor final", disse.

Hoje, cerca de 40% das indústrias voltaram a trabalhar, o que vai levar tempo para normalizar o fornecimento aos importadores não só de Rio Preto, mas do mundo. Se por lá a situação começa a se normalizar, por aqui complica. Segundo o despachante aduaneiro Marcio Marcassa Júnior, já existe um movimento do Sindicato dos Estivadores do Porto de Santos solicitando a paralisação das atividades portuárias. "Se isso ocorrer, aí sim a situação ficará bastante complicada, pois além de não haver importações teremos também a falta das exportações", disse. E o resultado são grandes problemas para o fluxo de comércio exterior do Brasil.

Segundo o técnico agrícola e biólogo André Volfe, um dos itens que serão afetados são os defensivos agrícolas. Isso porque a produção é em multinacionais e 80% dos ingredientes ativos desses produtos são provenientes da China. "Esse um problema que vai ocorrer no médio prazo, ou seja, no segundo semestre. A importação já foi feita, mas a formulação é feita no Brasil", afirma. Quanto aos fertilizantes, deve ocorrer o mesmo, já que atividades estão suspensas nos países de fabricação, incluindo China, Estados Unidos, alguns do Oriente Médio e Estados Unidos.

Outro impacto é o aumento expressivo no valor do frete aéreo da China para o Brasil e falta de espaço também nas aeronaves. Segundo ele, o valor passou de US$ 3,95 por quilo para quase US$ 15 por quilo. "Algumas empresas colocaram os pedidos em stand-by para compra de matéria-prima mais em razão da alta do dólar do que do coronavírus", afirma Marcassa Júnior. Nesta semana, o dólar chegou a fechar acima de R$ 5. (LM)

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